domingo, 31 de maio de 2015

Kino

Eu tinha apenas seis anos, o mundo era um lugar estranho, todo aquele barulho a escola, as pessoas sempre correndo de um lado para o outro.
Eu estava, junto com toda escola, em uma seleção para a peça anual que a professora Vitoria (Todas as professoras de todas as escolas se chamavam Vitoria) realizava, meu irmão sempre falava que todo ano se repetia aquela peça idiota, coisa do governo pra enaltecer (Seja lá o que isso queira dizer) a revolução e para lembrar como os tempos anteriores eram ruins e atualmente tudo era melhor.
Marcos sempre me falava sobre tudo, meu irmão era um cara muito inteligente para alguém com apenas 16 anos, sempre me explicando como as coisas funcionavam, não que eu na época ligasse, mas eu nunca consegui esquecer nada, principalmente aquele dia.
A professora me olhou com desdém e disse que eu poderia ser um figurante, uma pedra talvez, por que alguém precisava representar uma pedra eu nunca vou entender, mas ela logo me dispensou o que me deixou muito feliz.
Meu irmão também foi rejeitado, como todos os anos, ele sempre conseguia se livrar daquela peça chata, o único ano em que ele foi selecionado ele errou, de propósito, todas as falas, tropeçava no palco, derrubava os outros atores, tudo para que ele nunca mais fosse convocado, fato esse que quase o levou a ser expulso da escola, isso só não ocorreu por que o governo não queria esse tipo de incidente durante aquele ano quando a imprensa de outros lugares estava visitando a cidade.
O que importava era que estávamos por mais um ano livres e a caminho de casa, antes de sair da escola todos os alunos recebiam a ração, uma porção de um mingau com uma barra de proteínas com uma cor escura, da qual meu irmão falava que era feita de baratas e insetos processados, e um litro de um liquido que era semelhante ao leite, ninguém nunca soube dizer o que era, mas pelo menos era doce e dava pra engolir.
Estava chovendo, sempre estava chovendo na nossa cidade, era dia de feira e na frente da escola pululava de bancas de feirantes vendendo todo tipo de coisa, antigos aparelhos de imagens, peças para os auto transportes, alguns poucos legumes de cor incerta, espetos de camundongos empanados em uma mistura em pó da barra de proteína que fazia parte de quase tudo o que se comia na cidade desde a revolução.
Eu seguia a fila de saída usando minha capa de chuva amarela, igual a todos os outros alunos da minha idade, cada turma de cada ano usava um modelo de cor diferente, eu estava prestando atenção na feira, não era permitido aos alunos irem até ela, todos os alunos deveriam seguir as filas de sua turma em direção ao auto transporte que nos deixava em nossas casas.
Mas eu estava distraído demais e simplesmente ignorei a fila e fui em direção a feirinha, ninguém viu, na verdade nenhum funcionário do governo se importava muito com a gente, todos eram muito grosseiros e na maioria do tempo ignoravam quase que completamente a gente, meu irmão me falava que éramos ignorados por conta da nossa condição, éramos pobres é o governo não se importava com os pobres, eu não acreditava nisso, pois o governo dava capas de chuva pra gente, sempre tinha a ração.
A chuva ficou fina e até apareceu um pouco do sol em meio às nuvens, eu caminhava pela feirinha olhando aquele mundo de coisas pra vender, o povo gritando, oferecendo suas tralhas, comidas, jogos de pontaria.
Tudo era novidade, tudo era mágico, não se permitia crianças na rua desde a revolução todas que eram pegas nas ruas iam parar em prisões especiais e depois ninguém sabia o que acontecia com elas, continuei andando até chegar a uma grande praça coberta, antes era uma quadra de algum esporte antigo, hoje ela estava abandonada, o único esporte permitido pelo estado era o Blitz, um tipo de jogo de pega bandeiras, mas o time que perdesse era morto, era um esporte muito violento e destinado apenas há criminosos de guerra, bandidos e pessoas que falavam contra a gloriosa revolução, mas todos que ainda tivessem um aparelho de imagens eram obrigados a assistir e quem não tivesse tinha a obrigação de ir aos centros comunais assistir sob pena de multa e até a participação no jogo caso não o fizesse.
Na praça um grupo de garotos e meninas estava bebendo e soltando fumaça pela boca, todos riam muito e lá estava o meu irmão no meio deles fazendo imitações de um policial quando ele me viu.
Nunca vi alguém mudar de semblante daquela forma, ele ficou pálido e soltou o copo na hora:
- Kino seu idiota, o que diabos você está fazendo aqui, perdeu o juízo?
Todos me cercaram e não paravam de falar:
- Temos que esconder ele, se pegam uma criança na rua com a gente vamos parar nas fabricas Marcos.
- Cara como vamos levar ele pra casa sem que ninguém veja?
- Eu vou embora, eu vou embora, eu vou embora. – Falava uma das meninas.
- Cara eu não posso me envolver com isso não Marcos, sinto muito, mas vou me mandar. - E saiu correndo.
- Fechem a porra da boca todos vocês. – Bradou meu irmão.
- Vamos pensar com calma, em primeiro lugar como raios tu chegou aqui Kino, você deveria estar em casa, como chegou aqui, anda fala logo seu idiota.
Tudo o que eu me lembro foi de começar a chorar, as meninas me abraçaram e começaram a insultar o Marcos, mas mesmo chorando eu via o medo nos olhos delas.
- Me desculpa só queria ver a feira. – Falei em meio a lagrimas.
- Desculpa pirralho, perdi a cabeça, mas olha só tu não pode fazer isso nunca mais entendeu, se a policia te pega te mandam pras fabricas e de lá tu não sai nunca mais, ta entendendo?
Apenas balancei a cabeça concordando, então Marcos começou a bolar uma forma de me levar pra casa junto com todos os outros, qual era o melhor caminho, como evitar a policia e as meninas me escondiam formando um circulo enquanto tentavam me acalmar, dois dos amigos do Marcos ficavam de vigia pra ver se nenhum policial se aproximava, eu não estava entendendo, sim eu sabia que crianças eram levadas, mas apenas crianças sem pai e sem mãe, eu só tinha ido ver a feira que mal há nisso?
Marcos me explicou o que eles pretendiam fazer, iam andar todos juntos até a nossa casa e eu teria que andar no meio deles, mas havia um problema nesse plano, eles não poderiam andar pelas ruas principais a gente ia ter que andar pelo antigo centro.
Quando Marcos me falou isso eu tentei correr, de jeito nenhum eu passaria no antigo centro, todo mundo sabe que o antigo centro é assombrado e que ninguém deve andar lá. Então meu irmão me segurou pelos ombros e eu enxerguei o medo nos olhos dele enquanto ele falava.
- Olha pirralho eu sinto muito ter que fazer você passar pelo antigo centro, mas entenda, se a policia pega uma criança na rua e andando com a gente vamos todos presos, a nossa mãe nunca mais vai ver a gente e nem as mães e pais de todo mundo aqui, ta entendendo?
- Mas eu só queria ver a feira, o que tem de tão mal nisso, eu não fiz nada de errado!
- Eu sei pirralho, eu sei...
Então pela primeira vez na vida eu vi meu irmão que eu tanto admirava chorar.
- Não chora não, vamos só não me deixa sozinho lá, por favor.
- Não se preocupe pirralho a gente vai te levar pra casa..

terça-feira, 17 de março de 2015

Uma sexta qualquer.

Era uma sexta feira como tantas outras, como tantas outras sabe?
Toda aquela coisa de alegria por não ter que trabalhar no dia seguinte, a promessa de festas, amigos, bebidas, mulheres.
Eu era apenas o office da empresa, meu trabalho era pagar contas, enfrentar filas, comer quentinhas ruins e ganhar o mínimo.
Eu tinha planos para aquela sexta, assim disse ao Fernando da contabilidade, Fernando vivia em festas, era endividado até o pescoço, tinha uma namorada ciumenta e traia ela com a Lurdinha do RH, uma mulher até que bonita para quem já teve 3 filhos e já estava no alto de seus 45 anos, Fernando nunca estava triste, nunca mesmo.
Lurdinha trabalhava com o Oscar, ele era chefe do setor, vivia mal humorado e nunca acertava o meu nome me chamando sempre de “garoto” apesar de eu não ser mais um garoto a muito tempo, Oscar era homossexual só que doido quem fosse comentar algo a respeito com ele, seu “caso” era o Luís das entregas um tipo feio mas forte e com uma barba que ele nunca tirava por nada nesse mundo.
Luís que era casado então mantinha esse caso com o Oscar somente pra complementar o parco salario que recebia como entregador, assim comentava com os poucos que sabiam do caso, tinha fama de mulherengo que fazia questão de confirmar, só que eu sabia que tudo que recebia era pra sua filhinha doente a Maria Conceição e sua esposa miúda Francisca de um interior qualquer ao qual ele nunca falava a respeito, nem levava elas nas festas “obrigatórias” da empresa por medo que ela descubra do caso ou por medo de sentirem pena da filhinha dele.
Não havia nada de especial naquela sexta na verdade, nem sei o que me levava a pensar em algo, sabe quando tu para e pensa nas coisas? Bom acho que era isso, de vez em quando paramos pra pensar na banalidade das coisas e nas pessoas com as quais passamos tanto tempo, sabemos tanto a respeito delas, mas ainda é como se nada soubéssemos delas, como se não fossem parte de nossa vida, são apenas colegas de trabalho e nada mais só que passamos mais tempo com essas pessoas do que com a nossa própria família, era estranho.
Por exemplo a Dona Julia, esposa do Dr(Que não era doutor, mas adorava o tratamento) Roberto, mulher de 40 e poucos anos, nunca tive certeza da idade, era infeliz no casamento, incapaz de trair o marido, apesar dele a trair com qualquer coisa que não tivesse um pênis no meio da perna e ainda assim eu tinha as minhas dúvidas se ele não saia com travestis, e mesmo tendo um casamento infeliz, um casal de filhos que eram só dor de cabeça, Felipe era viciado em drogas, Amanda era namorada de um juiz corrupto que vendia sentenças, ela era capaz de ser gentil comigo, um simples office, sabia o meu nome, perguntava se eu não estava precisando de nada, me aconselhava a tomar cuidado no transito, me incentivava a estudar e ser um bom cidadão.
Eu gostava de Dona Julia, tinha um pouco de pena dela, tinha vontade de dizer pra ela largar o marido, internar o filho e incentivar a filha a denunciar o namorado pra ele ir preso.
Mas no máximo o que eu falava era sim senhora, não senhora, pode deixar que eu tomo cuidado e agradeço a atenção Dona Julia, mas não se incomode comigo não.
A sexta feira corria como toda sexta feira, sabe aquela aura de felicidade das pessoas, casa, descanso, paz, ficar longe dessa droga de empresa, esse era o Juliano Supervisor de vendas. Juliano estava sempre se maldizendo e reclamando das baixas vendas de seus subordinados, embora eu soubesse que só de comissão ele recebia uma bolada e nunca repartia nada com os vendedores, caso eles batessem suas metas, ele era um dos que não sabiam e nem tinham interesse em saber meu nome, nunca olhava ou me dava um simples bom dia, sempre falava mal de pobres só que eu sabia que sua mãe e irmãos moravam de aluguel e ele teve uma infância muito pobre, hoje ele ignora a família e não ajuda a mãe doente.
Juliano sempre dava em cima de Roberta a recepcionista, sempre linda e bem maquiada em seus deslumbrantes 25 anos, sabe aquele mulherão mesmo de parar o transito?
Sabe vários idiomas, está fazendo um mestrado(assim ela conta) não dá bola pra ninguém aqui da empresa e fala que tem um namorado rico, eu juro que tento entender a Roberta, ela faz programas nos finais de semana, o tal namorado rico bate nela e acho que é cafetão da coitada e até onde eu sei ninguém da família dela aceita mais ela em casa depois que souberam que ela fazia programa.
Não sei o motivo de pensar em todas essas coisas hoje, vai ver é essa aura de felicidade por algo tão bobo quanto um final de semana, não sei ao certo só o que sei é que nesse final de semana vou fazer um bico de garçom pra pagar umas contas, afinal de contas é só um final de semana como outro qualquer.
Talvez um dia desses eu junte uma grana pra sair e beber com o Fernando, quem sabe eu diga pra Lurdinha procurar coisa melhor pra ela, ou fale pro Oscar aprender meu nome é assumir que é gay.
Talvez ajudar o Luís a arrumar outro emprego e apresentar a filhinha dele é a esposa pra gente, desse um abraço na Dona Julia e agradecesse toda a gentileza e afeto que ela demonstra por minha pessoa.
Ou quem sabe eu desse um soco no Juliano e mandasse ele parar de ser covarde e sem vergonha e fosse ajudar a pobre mãe doente já que ele poderia fazer isso.
Ou desse um afetuoso abraço na Roberta, contasse o que ela parecia não saber, que ela era linda e inteligente, não precisava se submeter a um safado que batia e explorava ela.
Não sei, só sei que já são 10 para as 5 e está perto de bater o ponto, pegar a velha moto 97, encarar o transito infernal e chegar no meu barraco e dormir, afinal de contas era apenas mais uma sexta, mais uma sexta que eu ia pra casa pensando na mesma coisa que pensei na sexta da semana passada.
E isso já faziam pelo menos cinco anos, cinco anos que eu pensava em pedir demissão, mas não sei ao certo por que continuava esperando, sempre aguardando que na próxima sexta as coisas fossem diferentes, quem sabe na próxima eu tome coragem, quem sabe