domingo, 31 de maio de 2015

Kino

Eu tinha apenas seis anos, o mundo era um lugar estranho, todo aquele barulho a escola, as pessoas sempre correndo de um lado para o outro.
Eu estava, junto com toda escola, em uma seleção para a peça anual que a professora Vitoria (Todas as professoras de todas as escolas se chamavam Vitoria) realizava, meu irmão sempre falava que todo ano se repetia aquela peça idiota, coisa do governo pra enaltecer (Seja lá o que isso queira dizer) a revolução e para lembrar como os tempos anteriores eram ruins e atualmente tudo era melhor.
Marcos sempre me falava sobre tudo, meu irmão era um cara muito inteligente para alguém com apenas 16 anos, sempre me explicando como as coisas funcionavam, não que eu na época ligasse, mas eu nunca consegui esquecer nada, principalmente aquele dia.
A professora me olhou com desdém e disse que eu poderia ser um figurante, uma pedra talvez, por que alguém precisava representar uma pedra eu nunca vou entender, mas ela logo me dispensou o que me deixou muito feliz.
Meu irmão também foi rejeitado, como todos os anos, ele sempre conseguia se livrar daquela peça chata, o único ano em que ele foi selecionado ele errou, de propósito, todas as falas, tropeçava no palco, derrubava os outros atores, tudo para que ele nunca mais fosse convocado, fato esse que quase o levou a ser expulso da escola, isso só não ocorreu por que o governo não queria esse tipo de incidente durante aquele ano quando a imprensa de outros lugares estava visitando a cidade.
O que importava era que estávamos por mais um ano livres e a caminho de casa, antes de sair da escola todos os alunos recebiam a ração, uma porção de um mingau com uma barra de proteínas com uma cor escura, da qual meu irmão falava que era feita de baratas e insetos processados, e um litro de um liquido que era semelhante ao leite, ninguém nunca soube dizer o que era, mas pelo menos era doce e dava pra engolir.
Estava chovendo, sempre estava chovendo na nossa cidade, era dia de feira e na frente da escola pululava de bancas de feirantes vendendo todo tipo de coisa, antigos aparelhos de imagens, peças para os auto transportes, alguns poucos legumes de cor incerta, espetos de camundongos empanados em uma mistura em pó da barra de proteína que fazia parte de quase tudo o que se comia na cidade desde a revolução.
Eu seguia a fila de saída usando minha capa de chuva amarela, igual a todos os outros alunos da minha idade, cada turma de cada ano usava um modelo de cor diferente, eu estava prestando atenção na feira, não era permitido aos alunos irem até ela, todos os alunos deveriam seguir as filas de sua turma em direção ao auto transporte que nos deixava em nossas casas.
Mas eu estava distraído demais e simplesmente ignorei a fila e fui em direção a feirinha, ninguém viu, na verdade nenhum funcionário do governo se importava muito com a gente, todos eram muito grosseiros e na maioria do tempo ignoravam quase que completamente a gente, meu irmão me falava que éramos ignorados por conta da nossa condição, éramos pobres é o governo não se importava com os pobres, eu não acreditava nisso, pois o governo dava capas de chuva pra gente, sempre tinha a ração.
A chuva ficou fina e até apareceu um pouco do sol em meio às nuvens, eu caminhava pela feirinha olhando aquele mundo de coisas pra vender, o povo gritando, oferecendo suas tralhas, comidas, jogos de pontaria.
Tudo era novidade, tudo era mágico, não se permitia crianças na rua desde a revolução todas que eram pegas nas ruas iam parar em prisões especiais e depois ninguém sabia o que acontecia com elas, continuei andando até chegar a uma grande praça coberta, antes era uma quadra de algum esporte antigo, hoje ela estava abandonada, o único esporte permitido pelo estado era o Blitz, um tipo de jogo de pega bandeiras, mas o time que perdesse era morto, era um esporte muito violento e destinado apenas há criminosos de guerra, bandidos e pessoas que falavam contra a gloriosa revolução, mas todos que ainda tivessem um aparelho de imagens eram obrigados a assistir e quem não tivesse tinha a obrigação de ir aos centros comunais assistir sob pena de multa e até a participação no jogo caso não o fizesse.
Na praça um grupo de garotos e meninas estava bebendo e soltando fumaça pela boca, todos riam muito e lá estava o meu irmão no meio deles fazendo imitações de um policial quando ele me viu.
Nunca vi alguém mudar de semblante daquela forma, ele ficou pálido e soltou o copo na hora:
- Kino seu idiota, o que diabos você está fazendo aqui, perdeu o juízo?
Todos me cercaram e não paravam de falar:
- Temos que esconder ele, se pegam uma criança na rua com a gente vamos parar nas fabricas Marcos.
- Cara como vamos levar ele pra casa sem que ninguém veja?
- Eu vou embora, eu vou embora, eu vou embora. – Falava uma das meninas.
- Cara eu não posso me envolver com isso não Marcos, sinto muito, mas vou me mandar. - E saiu correndo.
- Fechem a porra da boca todos vocês. – Bradou meu irmão.
- Vamos pensar com calma, em primeiro lugar como raios tu chegou aqui Kino, você deveria estar em casa, como chegou aqui, anda fala logo seu idiota.
Tudo o que eu me lembro foi de começar a chorar, as meninas me abraçaram e começaram a insultar o Marcos, mas mesmo chorando eu via o medo nos olhos delas.
- Me desculpa só queria ver a feira. – Falei em meio a lagrimas.
- Desculpa pirralho, perdi a cabeça, mas olha só tu não pode fazer isso nunca mais entendeu, se a policia te pega te mandam pras fabricas e de lá tu não sai nunca mais, ta entendendo?
Apenas balancei a cabeça concordando, então Marcos começou a bolar uma forma de me levar pra casa junto com todos os outros, qual era o melhor caminho, como evitar a policia e as meninas me escondiam formando um circulo enquanto tentavam me acalmar, dois dos amigos do Marcos ficavam de vigia pra ver se nenhum policial se aproximava, eu não estava entendendo, sim eu sabia que crianças eram levadas, mas apenas crianças sem pai e sem mãe, eu só tinha ido ver a feira que mal há nisso?
Marcos me explicou o que eles pretendiam fazer, iam andar todos juntos até a nossa casa e eu teria que andar no meio deles, mas havia um problema nesse plano, eles não poderiam andar pelas ruas principais a gente ia ter que andar pelo antigo centro.
Quando Marcos me falou isso eu tentei correr, de jeito nenhum eu passaria no antigo centro, todo mundo sabe que o antigo centro é assombrado e que ninguém deve andar lá. Então meu irmão me segurou pelos ombros e eu enxerguei o medo nos olhos dele enquanto ele falava.
- Olha pirralho eu sinto muito ter que fazer você passar pelo antigo centro, mas entenda, se a policia pega uma criança na rua e andando com a gente vamos todos presos, a nossa mãe nunca mais vai ver a gente e nem as mães e pais de todo mundo aqui, ta entendendo?
- Mas eu só queria ver a feira, o que tem de tão mal nisso, eu não fiz nada de errado!
- Eu sei pirralho, eu sei...
Então pela primeira vez na vida eu vi meu irmão que eu tanto admirava chorar.
- Não chora não, vamos só não me deixa sozinho lá, por favor.
- Não se preocupe pirralho a gente vai te levar pra casa..

terça-feira, 17 de março de 2015

Uma sexta qualquer.

Era uma sexta feira como tantas outras, como tantas outras sabe?
Toda aquela coisa de alegria por não ter que trabalhar no dia seguinte, a promessa de festas, amigos, bebidas, mulheres.
Eu era apenas o office da empresa, meu trabalho era pagar contas, enfrentar filas, comer quentinhas ruins e ganhar o mínimo.
Eu tinha planos para aquela sexta, assim disse ao Fernando da contabilidade, Fernando vivia em festas, era endividado até o pescoço, tinha uma namorada ciumenta e traia ela com a Lurdinha do RH, uma mulher até que bonita para quem já teve 3 filhos e já estava no alto de seus 45 anos, Fernando nunca estava triste, nunca mesmo.
Lurdinha trabalhava com o Oscar, ele era chefe do setor, vivia mal humorado e nunca acertava o meu nome me chamando sempre de “garoto” apesar de eu não ser mais um garoto a muito tempo, Oscar era homossexual só que doido quem fosse comentar algo a respeito com ele, seu “caso” era o Luís das entregas um tipo feio mas forte e com uma barba que ele nunca tirava por nada nesse mundo.
Luís que era casado então mantinha esse caso com o Oscar somente pra complementar o parco salario que recebia como entregador, assim comentava com os poucos que sabiam do caso, tinha fama de mulherengo que fazia questão de confirmar, só que eu sabia que tudo que recebia era pra sua filhinha doente a Maria Conceição e sua esposa miúda Francisca de um interior qualquer ao qual ele nunca falava a respeito, nem levava elas nas festas “obrigatórias” da empresa por medo que ela descubra do caso ou por medo de sentirem pena da filhinha dele.
Não havia nada de especial naquela sexta na verdade, nem sei o que me levava a pensar em algo, sabe quando tu para e pensa nas coisas? Bom acho que era isso, de vez em quando paramos pra pensar na banalidade das coisas e nas pessoas com as quais passamos tanto tempo, sabemos tanto a respeito delas, mas ainda é como se nada soubéssemos delas, como se não fossem parte de nossa vida, são apenas colegas de trabalho e nada mais só que passamos mais tempo com essas pessoas do que com a nossa própria família, era estranho.
Por exemplo a Dona Julia, esposa do Dr(Que não era doutor, mas adorava o tratamento) Roberto, mulher de 40 e poucos anos, nunca tive certeza da idade, era infeliz no casamento, incapaz de trair o marido, apesar dele a trair com qualquer coisa que não tivesse um pênis no meio da perna e ainda assim eu tinha as minhas dúvidas se ele não saia com travestis, e mesmo tendo um casamento infeliz, um casal de filhos que eram só dor de cabeça, Felipe era viciado em drogas, Amanda era namorada de um juiz corrupto que vendia sentenças, ela era capaz de ser gentil comigo, um simples office, sabia o meu nome, perguntava se eu não estava precisando de nada, me aconselhava a tomar cuidado no transito, me incentivava a estudar e ser um bom cidadão.
Eu gostava de Dona Julia, tinha um pouco de pena dela, tinha vontade de dizer pra ela largar o marido, internar o filho e incentivar a filha a denunciar o namorado pra ele ir preso.
Mas no máximo o que eu falava era sim senhora, não senhora, pode deixar que eu tomo cuidado e agradeço a atenção Dona Julia, mas não se incomode comigo não.
A sexta feira corria como toda sexta feira, sabe aquela aura de felicidade das pessoas, casa, descanso, paz, ficar longe dessa droga de empresa, esse era o Juliano Supervisor de vendas. Juliano estava sempre se maldizendo e reclamando das baixas vendas de seus subordinados, embora eu soubesse que só de comissão ele recebia uma bolada e nunca repartia nada com os vendedores, caso eles batessem suas metas, ele era um dos que não sabiam e nem tinham interesse em saber meu nome, nunca olhava ou me dava um simples bom dia, sempre falava mal de pobres só que eu sabia que sua mãe e irmãos moravam de aluguel e ele teve uma infância muito pobre, hoje ele ignora a família e não ajuda a mãe doente.
Juliano sempre dava em cima de Roberta a recepcionista, sempre linda e bem maquiada em seus deslumbrantes 25 anos, sabe aquele mulherão mesmo de parar o transito?
Sabe vários idiomas, está fazendo um mestrado(assim ela conta) não dá bola pra ninguém aqui da empresa e fala que tem um namorado rico, eu juro que tento entender a Roberta, ela faz programas nos finais de semana, o tal namorado rico bate nela e acho que é cafetão da coitada e até onde eu sei ninguém da família dela aceita mais ela em casa depois que souberam que ela fazia programa.
Não sei o motivo de pensar em todas essas coisas hoje, vai ver é essa aura de felicidade por algo tão bobo quanto um final de semana, não sei ao certo só o que sei é que nesse final de semana vou fazer um bico de garçom pra pagar umas contas, afinal de contas é só um final de semana como outro qualquer.
Talvez um dia desses eu junte uma grana pra sair e beber com o Fernando, quem sabe eu diga pra Lurdinha procurar coisa melhor pra ela, ou fale pro Oscar aprender meu nome é assumir que é gay.
Talvez ajudar o Luís a arrumar outro emprego e apresentar a filhinha dele é a esposa pra gente, desse um abraço na Dona Julia e agradecesse toda a gentileza e afeto que ela demonstra por minha pessoa.
Ou quem sabe eu desse um soco no Juliano e mandasse ele parar de ser covarde e sem vergonha e fosse ajudar a pobre mãe doente já que ele poderia fazer isso.
Ou desse um afetuoso abraço na Roberta, contasse o que ela parecia não saber, que ela era linda e inteligente, não precisava se submeter a um safado que batia e explorava ela.
Não sei, só sei que já são 10 para as 5 e está perto de bater o ponto, pegar a velha moto 97, encarar o transito infernal e chegar no meu barraco e dormir, afinal de contas era apenas mais uma sexta, mais uma sexta que eu ia pra casa pensando na mesma coisa que pensei na sexta da semana passada.
E isso já faziam pelo menos cinco anos, cinco anos que eu pensava em pedir demissão, mas não sei ao certo por que continuava esperando, sempre aguardando que na próxima sexta as coisas fossem diferentes, quem sabe na próxima eu tome coragem, quem sabe

domingo, 11 de novembro de 2012

Tormenta


Sabe aquele momento de silêncio, aquela calmaria que se faz antes de uma tormenta?
Não se sabe ao certo como, mas se tem a certeza de que algo vai acontecer, o problema e que nunca sabemos se é algo bom ou ruim.
Eu fico pensando em tanta coisa que eu poderia ter feito tantas coisas que eu poderia ter falado, tantos momentos onde eu poderia ter aproveitado mais a vida, amado mais, perdoado.
Talvez quem sabe ainda possa fazer essas coisas, isso é claro se houvesse como, e só um desejo de melhorar, pensar diferente, encarar as coisas de um modo bom e com alguma esperança, quem sabe alguns sonhos ou bem menos indiferença a tudo.
Algumas mudanças se fazem necessárias hoje em dia, algumas bem urgentes outras nem tanto, mas igualmente necessárias para que eu possa continuar ou parar de vez, mas parar de vez nunca foi uma opção para pessoas como eu, pessoas que não podem contar com a sorte, simpatia ou qualquer tipo de privilégio que a vida concede a alguns poucos afortunados.
Não sou melhor do que ninguém, mas não sou tão fraco quanto à maioria, vivo meus pesadelos diariamente, convivemos um tentando devorar o outro em um poço de amargura, dúvidas e a eterna solidão.
Vivo a minha insanidade como sendo a minha realidade, alguém consegue fazer o contrario?
Se conseguir, por favor, me ensine como.
As coisas andam calmas ultimamente muito calmas, o que me assusta, mudanças não me assustam, minha vida e uma eterna desordem de sentimentos, pensamentos sem nenhum descanso, mas tudo parou...
A calmaria me assusta mais do que a tempestade, mas tempestades não trazem apenas destruição, trazem também renovação, novas perspectivas, uma nova forma de encarar o meu pequeno mundo irreal de metal e cinzas.

sábado, 1 de setembro de 2012

Um pouco de pensamentos perdidos...


Fiquei pensando essa noite enquanto me revirava na cama entre dores no corpo e cansaço físico e porque não espiritual o que diabos estou fazendo com a minha vida?                
Emprego sem perspectiva, não tenho amigos aqui creio que seja até o contrario, não tenho a simpatia de ninguém e nem me esforço pra isso, vivo remoendo um passado que desprezo com todas as forças que um Homem pode usar, vivo ansioso com um futuro que nunca chega, muito embora eu faça o que posso pra que ele chegue...
Caminho sozinho, sempre sozinho em busca de algum sinal de redenção, não sei que tipo de redenção eu posso encontrar em um mundo tão vazio de tudo, ou seria eu que me encontro vazio.
As pessoas não entendem, as pessoas não querem entender, pois pensar deprime, enxergar algumas verdades torna a gente doente, apático, sem esperanças, ninguém pode viver sem esperanças, seria como na Divina comédia...
DEIXAI TODAS AS ESPERANÇAS, VÓS QUE ENTRAIS!
Ninguém vive assim, mas o ponto é até onde a gente consegue sacrificar algo que julgamos importante para sermos felizes?
Felicidade e uma utopia tola e claro temos momentos felizes, somos obrigados a aparentar felicidade, acho que passo mais tempo com livros do que com pessoas, quer dizer já passei até mais tempo com livros hoje em dia tenho lido muito pouco.
Vivemos em função de agradar pessoas que não gostamos pois sem essa ferramenta não se consegue viver, minha lista de pessoas que gosto de verdade é extremamente restrita e não costumo abrir vagas, as poucas que perdem esse posto nunca mais tem a chance de entrarem novamente...
Não sei só gosto de escrever sobre meus pensamentos, escrever ajuda bastante nessas horas onde estamos por tomar alguma decisão, preciso dar um rumo a minha vida, ainda tenho muito o que viver, tentar, experimentar.
Não quero passar o resto de meus poucos dias preso em uma vida que eu não gosto, a mesma ladainha de sempre, emprego ruim, sem amigos, sem perspectiva...
Quem sabe uma outra cidade, uma nova vida, um novo personagem para tomar lugar do personagem atual, eu meio que me cansei de bancar o alone, o solitário, o pessimista, cansei de tentar agradar quem não gosta da minha pessoa.
Uma vida nova, um novo começo, tudo do zero, caminhando sempre sozinho em meio a um mundo que não e nada simpático com ninguém, mas enquanto eu jamais parar de dar um passo depois do outro vou continuar como sempre tenho feito, desde que me entendo por gente, e acredito que sempre vai ser assim, sempre...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Apenas um outono qualquer...


Hoje tinha sido um dia comum, como tantos outros dias comuns, era a primeira vez que eu pedia para sair mais cedo, em dez anos de empresa eu nunca tinha me atrasado ou faltado fosse pelo motivo que fosse.
Mas hoje eu disse que ia sair mais cedo, estava doente eu falei, precisava descansar um pouco que amanha eu voltaria melhor eu disse, ninguém se importou e claro, mas eu tinha um grande motivo e precisava pensar no que fazer...
Eu sempre ia para casa de ônibus embora meu apartamento ficasse a poucas quadras do meu trabalho, era um apartamento pequeno, mas o bairro não era dos piores e tinha uma pracinha muito bonita em frente.
Fui caminhando e pela primeira vez em dez anos prestei atenção no meu trajeto, havia muitas lojinhas de todo tipo de coisa, pesos de papel, fantasias para festas, farmácias com seus eternos idosos dentro, uma padaria com um cheirinho bom de pão fresco, uma quitanda com frutas muito bonitas do outro lado da rua.
Era incrível que eu nunca tinha notado todo aquele mundo de coisas novas, quando jovem (Oras vejam só eu ainda tinha apenas 38 anos e já me considerava um idoso) eu sempre me gabava de prestar atenção em cada detalhe sobre tudo, engraçado o que o tempo e a acomodação faz com a gente.
Já próximo da pracinha que fica em frente ao meu apartamento eu entrei em uma lojinha de conveniência, um moça muito simpática com o rosto com várias espinhas me atende com um “BOA TARDE SENHOR” bem sonoro, sorrio para a moça e peço um maço de cigarro e algumas cervejas.
- Não e cedo demais para beber senhor?
- Não hoje mocinha, não hoje...
- Perdão senhor, não e da minha conta, desculpe.
- Não se preocupe.
Dei uma nota de cinqüenta para a moça e disse que ela poderia ficar com o troco, o que a deixou com um enorme sorriso no rosto, me despedi e fui para um banco da pracinha, entre alguns velhinhos que jogavam papo fora sobre política e algumas crianças que brincavam nos brinquedos eu apenas via uma coisa, o quanto o dia estava bonito, era outono o tempo estava meio frio, mas ainda assim agradável, a pequena lagoa no meio da pracinha refletia o sol o que dava um ar alaranjado a praça, era de fato um dia muito bonito.
Eu tomei umas três cervejas no banco, entre sorrisos infantis e velhos resmungando, na mais completa certeza de que aquele era um dia especial.
Resolvi ir para casa, as cervejas já estavam esquentando e eu não tinha mais pulmão para fumar, estava velho para fumar era o que eu me dizia todos os dias, o porteiro falou algo comigo que eu não prestei atenção e me entregou a correspondência, resolvi subir pelas escadas, exercício sempre era bom, eu acho...
Ao chegar à porta da minha casa escutei barulhos dentro, era estranho, pois a minha esposa estava no trabalho e eu não tinha filhos, abri a porta bem devagar sem fazer barulho e fui até a arma que guardo em baixo do sofá.
Caminhei para o meu quarto lentamente e entendi o que se passava, minha esposa estava me traindo, claro que eu já sabia desse fato há algum tempo, não importava e claro, afinal a minha vida de casado já tinha acabado há alguns anos, o que me surpreendeu foi com quem...
Abri a porta do quarto e lá está ela, uma mulher muito bonita com os seus trinta e cinco anos de idade, minha esposa sempre foi muito bonita, sempre me orgulhei da vaidade dela, ela estava com o meu melhor amigo Higino, ele morava no andar de baixo e a gente se conhecia desde que eu tinha uns oito anos.
- Marcos o que você ta fazendo aqui essa hora (Ela falou).
- Marcos, calma eu posso explicar (Ele falou).
E engraçado como nessa hora, quando a gente pega alguém no flagra nesse tipo de situação o como as justificativas são idiotas, oras o cara estava transando com a minha mulher na minha cama, é e o meu melhor amigo e me fala, EU POSSO EXPLICAR...
Tudo que eu via nos rostos de ambos era o pavor, e claro eu estava armado e tinha todos os motivos do mundo para matar ambos e por isso o medo deles, mas eu não os via naquele contexto, eu me lembrei de ambos desde o inicio, as brincadeiras com o Higino na rua, os jogos de futebol, as brigas, as namoradinhas, lembrei da Marta quando a conheci em um bailinho da minha cidade, a primeira dança, o primeiro beijo.
O quarto se encheu de terror por parte de ambos que me pediam calma, que me explicariam tudo, mas eu estava calmo, aquele era o dia mais perfeito da minha vida, era outono, o dia estava lindo, eu tinha uma linda esposa e um amigo que eu amava de verdade...
Dois tiros e tudo se silenciou...
Cheguei perto da Marta que jazia no chão com um tiro no peito, como ela era linda, eu nunca vou entender o como uma mulher tão bela terminou a vida com um homem como eu, beijei seu rosto e fechei seus olhos, me voltei para Higino, meu amado amigo Higino para quem eu fiz de um tudo nessa vida e faria ainda mais se fosse possível, beijei seu rosto e disse:
- Adeus meu amigo.
E fechei seus olhos.
A essa altura os outros moradores já tinham ligado para a polícia, eu ouvia gritos e berros nos corredores do prédio, deixei a arma em cima da cama e voltei para a sala, peguei a minha cerveja e fui para o ultimo andar do prédio, a cerveja estava quente, mas bebi-a mesmo assim, me sentei no parapeito e olhei o por do sol, um grande e belo por do sol, em breve a cidade ia se encher de luz e sons de carros, buzinas, gritos, música e sorrisos...
Assim era a vida eu acho...
Tirei do meu bolso o motivo de ter saído mais cedo do trabalho hoje, olhei os números mais uma vez comparando com os do jornal, sim era verdade eu era o único ganhador de um prêmio de mais de cinqüenta milhões, voltei mais cedo para casa justamente para dizer o quanto amava a minha esposa, pedir uma chance para ela, recomeçar...
Gritos atrás de mim, a polícia me manda colocar as mãos para cima, oras vejam só como é a vida, os gritos continuam, mas eu não me importo, pois nada vai estragar o meu dia.
Confiro novamente os números, sim era verdade, bebo mais um gole da cerveja quente e o resto e somente um borrão, na verdade não importa...
Alguns anos mais tarde, já em liberdade, eu me pego pensando naquela tarde de outono, sinceramente eu ainda espero que a Marta e o Higino apareçam aqui na minha casa para a gente apenas sorrir de tudo isso, lembrar dos tempos de outrora, planejar o futuro.
Não sei bem como a vida funciona ou o que esperar dela, mas sei que desde aquele dia eu tento viver cada minuto da melhor maneira possível, pois nunca se sabe o que nós espera mais a frente.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Pedaços de uma vida...


Na frente do pc pensando no que escrever, ou qual ego eu vou inflar hoje, pensando no passado, pensando nas minhas dores no corpo, minha mãos tremem meus ossos reclamam que precisam descansar os olhos ardem o sono não chega...
Olhei o decote de uma mulher vindo pra casa, uma bela loira, pensei na futilidade de olhar algo que em tese não e pra ser olhado, mas que todo mundo olha, a mulher coloca essa roupa pra chamar atenção, mas não quer pegar ninguém olhando, lógica nunca foi o forte das mulheres mesmo, virei o rosto e fiquei olhando o nada dos carros passando, pensei na fumaça, olhei os rostos cansados dentro dos carros passando, tão cansados quanto eu, quem sabe com filhos em casa esperando por eles, uma família, cachorro ou gato, contas...
Estava sentando na areia a alguns anos de uma praia qualquer, era noite, não haviam estrelas e tudo estava escuro, só eu e o absoluto nada, o barulho do silêncio o vento frio da noite na praia, as ondas quebrando, o cheiro do mar, tudo isso me traz uma paz tão grande que é como se eu nunca tivesse tido paz em outro lugar...
Eu acho que estou doente, sério, doente mesmo, não só fisicamente, sinto minha mente em frangalhos, meu corpo anda cheio de dores, nada mais me anima, minha alma está morta...
Ontem bebi algumas cervejas em um bar e fiquei embriagado, eu não tinha almoçado, eu não tenho almoçado há dias, a mente funciona, mas o corpo não, pessoas riam, se divertiam, eu só pensava no vazio de tudo aquilo...
Ando pensando em tanta coisa ultimamente, sinto tanta falta de tudo, até da minha vida horrível em Pernambuco, dos dias de fome e solidão, dos dias sentado no chão com um copo de vinho ouvindo nirvana sem ter comido nada o dia todo, pensando sempre pensando...
Nesse dia estava faltando água e eu deixei a torneira aberta com um balde pra quando chegasse à água eu juntasse ela, me sentei ao lado e bebi, ouvindo Come as you are, encostei a cabeça na parede, a água chegou, chegou e encheu o balde, eu deixei ele transbordar...
A água molhou as minhas pernas e foi escorrendo pelo corredor... 
Take your time, hurry up
Choice is yours, don't be late
Mais um gole de vinho, não lembro se era cedo ou tarde, a música acabou e eu fechei a torneira...
Eu acho que estou doente, sério, doente mesmo, não só fisicamente, sinto minha mente em frangalhos, meu corpo anda cheio de dores, nada mais me anima, minha alma está morta...

Devaneios de uma alma atormentada...

Eu me pergunto hoje onde me encontro nesse mundo sem lógica, porque eu não consigo apenas me deixar levar sem analisar nada que me acontece?
Por que eu ainda tenho consciência quando ninguém mais tem?
Beber, fumar, beber, dormir com uma mulher que você só viu uma ou outra vez, sexo casual dizem, gastar dinheiro que não se tem, sorrir, se alegrar, beber de novo, sexo com outra mulher que você nunca viu...
Todo mundo faz isso, mas eu não consigo, não consigo expressar o vazio que sinto com palavras, não consigo pensar em nada que não seja a ressaca moral, eu não sou isso, não sou assim (me engano)...
Apenas uma dose eu penso, apenas isso...
Eu sou o cara que vive sem amigos, sem contatos, sem nada além do trabalho, estudo e mais trabalho, eu não ligo ou eu ligo pra tudo de uma forma mais intensa do que gostaria?
Eu não sei dizer bem o que se passa (e ninguém se importa), mas sinto falta da minha vida de solidão, meus dias sozinho com livros, sem TV, com música e vinho, uma casa escura e fria, uma cama tão gelada quanto a minha alma...
Bobagens eu penso, apenas e somente isso...
Apenas ressaca moral de uma noite estranha onde eu sempre faço o possível pra não lembrar nada, não gosto de beber, não fumo, sorrisos de uma falsa felicidade que se prova ser tão efêmera que me assusta, acendo um cigarro, mas eu não fumo...
Apenas solidão eu penso, apenas isso...
Você precisa de uma namorada cara, sério, eu preciso de um novo emprego (eu me cobro), você precisa arrumar o seu quarto (Me falou minha mãe) ou seria a minha vida? Que vida?
Apenas o vazio eu penso, somente isso...
Pensei em fazer algo pra sair dessa depressão pela qual passo, sabe como é a vida, não espera que a gente saia de depressões, ela simplesmente ignora todos os fracos e segue, eu já não tenho tempo a perder, sou velho (Eu penso), sou sozinho (Afirmo), quero morrer (EU nego), quero viver (Viver?)...
Apenas viver eu preciso, apenas isso...