Hoje tinha sido um dia comum, como tantos outros dias comuns,
era a primeira vez que eu pedia para sair mais cedo, em dez anos de empresa eu
nunca tinha me atrasado ou faltado fosse pelo motivo que fosse.
Mas hoje eu disse que ia sair mais cedo, estava doente eu
falei, precisava descansar um pouco que amanha eu voltaria melhor eu disse,
ninguém se importou e claro, mas eu tinha um grande motivo e precisava pensar
no que fazer...
Eu sempre ia para casa de ônibus embora meu apartamento
ficasse a poucas quadras do meu trabalho, era um apartamento pequeno, mas o
bairro não era dos piores e tinha uma pracinha muito bonita em frente.
Fui caminhando e pela primeira vez em dez anos prestei
atenção no meu trajeto, havia muitas lojinhas de todo tipo de coisa, pesos de
papel, fantasias para festas, farmácias com seus eternos idosos dentro, uma
padaria com um cheirinho bom de pão fresco, uma quitanda com frutas muito
bonitas do outro lado da rua.
Era incrível que eu nunca tinha notado todo aquele mundo de
coisas novas, quando jovem (Oras vejam só eu ainda tinha apenas 38 anos e já me
considerava um idoso) eu sempre me gabava de prestar atenção em cada detalhe
sobre tudo, engraçado o que o tempo e a acomodação faz com a gente.
Já próximo da pracinha que fica em frente ao meu apartamento
eu entrei em uma lojinha de conveniência, um moça muito simpática com o rosto
com várias espinhas me atende com um “BOA TARDE SENHOR” bem sonoro, sorrio para
a moça e peço um maço de cigarro e algumas cervejas.
- Não e cedo demais para beber senhor?
- Não hoje mocinha, não hoje...
- Perdão senhor, não e da minha conta, desculpe.
- Não se preocupe.
Dei uma nota de cinqüenta para a moça e disse que ela
poderia ficar com o troco, o que a deixou com um enorme sorriso no rosto, me
despedi e fui para um banco da pracinha, entre alguns velhinhos que jogavam
papo fora sobre política e algumas crianças que brincavam nos brinquedos eu
apenas via uma coisa, o quanto o dia estava bonito, era outono o tempo estava
meio frio, mas ainda assim agradável, a pequena lagoa no meio da pracinha
refletia o sol o que dava um ar alaranjado a praça, era de fato um dia muito
bonito.
Eu tomei umas três cervejas no banco, entre sorrisos
infantis e velhos resmungando, na mais completa certeza de que aquele era um
dia especial.
Resolvi ir para casa, as cervejas já estavam esquentando e
eu não tinha mais pulmão para fumar, estava velho para fumar era o que eu me
dizia todos os dias, o porteiro falou algo comigo que eu não prestei atenção e
me entregou a correspondência, resolvi subir pelas escadas, exercício sempre
era bom, eu acho...
Ao chegar à porta da minha casa escutei barulhos dentro, era
estranho, pois a minha esposa estava no trabalho e eu não tinha filhos, abri a
porta bem devagar sem fazer barulho e fui até a arma que guardo em baixo do
sofá.
Caminhei para o meu quarto lentamente e entendi o que se
passava, minha esposa estava me traindo, claro que eu já sabia desse fato há
algum tempo, não importava e claro, afinal a minha vida de casado já tinha
acabado há alguns anos, o que me surpreendeu foi com quem...
Abri a porta do quarto e lá está ela, uma mulher muito
bonita com os seus trinta e cinco anos de idade, minha esposa sempre foi muito
bonita, sempre me orgulhei da vaidade dela, ela estava com o meu melhor amigo
Higino, ele morava no andar de baixo e a gente se conhecia desde que eu tinha
uns oito anos.
- Marcos o que você ta fazendo aqui essa hora (Ela falou).
- Marcos, calma eu posso explicar (Ele falou).
E engraçado como nessa hora, quando a gente pega alguém no
flagra nesse tipo de situação o como as justificativas são idiotas, oras o cara
estava transando com a minha mulher na minha cama, é e o meu melhor amigo e me
fala, EU POSSO EXPLICAR...
Tudo que eu via nos rostos de ambos era o pavor, e claro eu
estava armado e tinha todos os motivos do mundo para matar ambos e por isso o
medo deles, mas eu não os via naquele contexto, eu me lembrei de ambos desde o
inicio, as brincadeiras com o Higino na rua, os jogos de futebol, as brigas, as
namoradinhas, lembrei da Marta quando a conheci em um bailinho da minha cidade,
a primeira dança, o primeiro beijo.
O quarto se encheu de terror por parte de ambos que me
pediam calma, que me explicariam tudo, mas eu estava calmo, aquele era o dia
mais perfeito da minha vida, era outono, o dia estava lindo, eu tinha uma linda
esposa e um amigo que eu amava de verdade...
Dois tiros e tudo se silenciou...
Cheguei perto da Marta que jazia no chão com um tiro no
peito, como ela era linda, eu nunca vou entender o como uma mulher tão bela
terminou a vida com um homem como eu, beijei seu rosto e fechei seus olhos, me
voltei para Higino, meu amado amigo Higino para quem eu fiz de um tudo nessa
vida e faria ainda mais se fosse possível, beijei seu rosto e disse:
- Adeus meu amigo.
E fechei seus olhos.
A essa altura os outros moradores já tinham ligado para a
polícia, eu ouvia gritos e berros nos corredores do prédio, deixei a arma em
cima da cama e voltei para a sala, peguei a minha cerveja e fui para o ultimo
andar do prédio, a cerveja estava quente, mas bebi-a mesmo assim, me sentei no
parapeito e olhei o por do sol, um grande e belo por do sol, em breve a cidade
ia se encher de luz e sons de carros, buzinas, gritos, música e sorrisos...
Assim era a vida eu acho...
Tirei do meu bolso o motivo de ter saído mais cedo do
trabalho hoje, olhei os números mais uma vez comparando com os do jornal, sim era
verdade eu era o único ganhador de um prêmio de mais de cinqüenta milhões,
voltei mais cedo para casa justamente para dizer o quanto amava a minha esposa,
pedir uma chance para ela, recomeçar...
Gritos atrás de mim, a polícia me manda colocar as mãos para
cima, oras vejam só como é a vida, os gritos continuam, mas eu não me importo,
pois nada vai estragar o meu dia.
Confiro novamente os números, sim era verdade, bebo mais um
gole da cerveja quente e o resto e somente um borrão, na verdade não importa...
Alguns anos mais tarde, já em liberdade, eu me pego pensando
naquela tarde de outono, sinceramente eu ainda espero que a Marta e o Higino
apareçam aqui na minha casa para a gente apenas sorrir de tudo isso, lembrar
dos tempos de outrora, planejar o futuro.
Não sei bem como a vida funciona ou o que esperar dela, mas
sei que desde aquele dia eu tento viver cada minuto da melhor maneira possível,
pois nunca se sabe o que nós espera mais a frente.