Era uma sexta feira como tantas outras, como tantas outras sabe?
Toda aquela coisa de alegria por não ter que trabalhar no dia seguinte, a promessa de festas, amigos, bebidas, mulheres.
Eu era apenas o office da empresa, meu trabalho era pagar contas, enfrentar filas, comer quentinhas ruins e ganhar o mínimo.
Eu tinha planos para aquela sexta, assim disse ao Fernando da contabilidade, Fernando vivia em festas, era endividado até o pescoço, tinha uma namorada ciumenta e traia ela com a Lurdinha do RH, uma mulher até que bonita para quem já teve 3 filhos e já estava no alto de seus 45 anos, Fernando nunca estava triste, nunca mesmo.
Lurdinha trabalhava com o Oscar, ele era chefe do setor, vivia mal humorado e nunca acertava o meu nome me chamando sempre de “garoto” apesar de eu não ser mais um garoto a muito tempo, Oscar era homossexual só que doido quem fosse comentar algo a respeito com ele, seu “caso” era o Luís das entregas um tipo feio mas forte e com uma barba que ele nunca tirava por nada nesse mundo.
Luís que era casado então mantinha esse caso com o Oscar somente pra complementar o parco salario que recebia como entregador, assim comentava com os poucos que sabiam do caso, tinha fama de mulherengo que fazia questão de confirmar, só que eu sabia que tudo que recebia era pra sua filhinha doente a Maria Conceição e sua esposa miúda Francisca de um interior qualquer ao qual ele nunca falava a respeito, nem levava elas nas festas “obrigatórias” da empresa por medo que ela descubra do caso ou por medo de sentirem pena da filhinha dele.
Não havia nada de especial naquela sexta na verdade, nem sei o que me levava a pensar em algo, sabe quando tu para e pensa nas coisas? Bom acho que era isso, de vez em quando paramos pra pensar na banalidade das coisas e nas pessoas com as quais passamos tanto tempo, sabemos tanto a respeito delas, mas ainda é como se nada soubéssemos delas, como se não fossem parte de nossa vida, são apenas colegas de trabalho e nada mais só que passamos mais tempo com essas pessoas do que com a nossa própria família, era estranho.
Por exemplo a Dona Julia, esposa do Dr(Que não era doutor, mas adorava o tratamento) Roberto, mulher de 40 e poucos anos, nunca tive certeza da idade, era infeliz no casamento, incapaz de trair o marido, apesar dele a trair com qualquer coisa que não tivesse um pênis no meio da perna e ainda assim eu tinha as minhas dúvidas se ele não saia com travestis, e mesmo tendo um casamento infeliz, um casal de filhos que eram só dor de cabeça, Felipe era viciado em drogas, Amanda era namorada de um juiz corrupto que vendia sentenças, ela era capaz de ser gentil comigo, um simples office, sabia o meu nome, perguntava se eu não estava precisando de nada, me aconselhava a tomar cuidado no transito, me incentivava a estudar e ser um bom cidadão.
Eu gostava de Dona Julia, tinha um pouco de pena dela, tinha vontade de dizer pra ela largar o marido, internar o filho e incentivar a filha a denunciar o namorado pra ele ir preso.
Mas no máximo o que eu falava era sim senhora, não senhora, pode deixar que eu tomo cuidado e agradeço a atenção Dona Julia, mas não se incomode comigo não.
A sexta feira corria como toda sexta feira, sabe aquela aura de felicidade das pessoas, casa, descanso, paz, ficar longe dessa droga de empresa, esse era o Juliano Supervisor de vendas. Juliano estava sempre se maldizendo e reclamando das baixas vendas de seus subordinados, embora eu soubesse que só de comissão ele recebia uma bolada e nunca repartia nada com os vendedores, caso eles batessem suas metas, ele era um dos que não sabiam e nem tinham interesse em saber meu nome, nunca olhava ou me dava um simples bom dia, sempre falava mal de pobres só que eu sabia que sua mãe e irmãos moravam de aluguel e ele teve uma infância muito pobre, hoje ele ignora a família e não ajuda a mãe doente.
Juliano sempre dava em cima de Roberta a recepcionista, sempre linda e bem maquiada em seus deslumbrantes 25 anos, sabe aquele mulherão mesmo de parar o transito?
Sabe vários idiomas, está fazendo um mestrado(assim ela conta) não dá bola pra ninguém aqui da empresa e fala que tem um namorado rico, eu juro que tento entender a Roberta, ela faz programas nos finais de semana, o tal namorado rico bate nela e acho que é cafetão da coitada e até onde eu sei ninguém da família dela aceita mais ela em casa depois que souberam que ela fazia programa.
Não sei o motivo de pensar em todas essas coisas hoje, vai ver é essa aura de felicidade por algo tão bobo quanto um final de semana, não sei ao certo só o que sei é que nesse final de semana vou fazer um bico de garçom pra pagar umas contas, afinal de contas é só um final de semana como outro qualquer.
Talvez um dia desses eu junte uma grana pra sair e beber com o Fernando, quem sabe eu diga pra Lurdinha procurar coisa melhor pra ela, ou fale pro Oscar aprender meu nome é assumir que é gay.
Talvez ajudar o Luís a arrumar outro emprego e apresentar a filhinha dele é a esposa pra gente, desse um abraço na Dona Julia e agradecesse toda a gentileza e afeto que ela demonstra por minha pessoa.
Ou quem sabe eu desse um soco no Juliano e mandasse ele parar de ser covarde e sem vergonha e fosse ajudar a pobre mãe doente já que ele poderia fazer isso.
Ou desse um afetuoso abraço na Roberta, contasse o que ela parecia não saber, que ela era linda e inteligente, não precisava se submeter a um safado que batia e explorava ela.
Não sei, só sei que já são 10 para as 5 e está perto de bater o ponto, pegar a velha moto 97, encarar o transito infernal e chegar no meu barraco e dormir, afinal de contas era apenas mais uma sexta, mais uma sexta que eu ia pra casa pensando na mesma coisa que pensei na sexta da semana passada.
E isso já faziam pelo menos cinco anos, cinco anos que eu pensava em pedir demissão, mas não sei ao certo por que continuava esperando, sempre aguardando que na próxima sexta as coisas fossem diferentes, quem sabe na próxima eu tome coragem, quem sabe
Toda aquela coisa de alegria por não ter que trabalhar no dia seguinte, a promessa de festas, amigos, bebidas, mulheres.
Eu era apenas o office da empresa, meu trabalho era pagar contas, enfrentar filas, comer quentinhas ruins e ganhar o mínimo.
Eu tinha planos para aquela sexta, assim disse ao Fernando da contabilidade, Fernando vivia em festas, era endividado até o pescoço, tinha uma namorada ciumenta e traia ela com a Lurdinha do RH, uma mulher até que bonita para quem já teve 3 filhos e já estava no alto de seus 45 anos, Fernando nunca estava triste, nunca mesmo.
Lurdinha trabalhava com o Oscar, ele era chefe do setor, vivia mal humorado e nunca acertava o meu nome me chamando sempre de “garoto” apesar de eu não ser mais um garoto a muito tempo, Oscar era homossexual só que doido quem fosse comentar algo a respeito com ele, seu “caso” era o Luís das entregas um tipo feio mas forte e com uma barba que ele nunca tirava por nada nesse mundo.
Luís que era casado então mantinha esse caso com o Oscar somente pra complementar o parco salario que recebia como entregador, assim comentava com os poucos que sabiam do caso, tinha fama de mulherengo que fazia questão de confirmar, só que eu sabia que tudo que recebia era pra sua filhinha doente a Maria Conceição e sua esposa miúda Francisca de um interior qualquer ao qual ele nunca falava a respeito, nem levava elas nas festas “obrigatórias” da empresa por medo que ela descubra do caso ou por medo de sentirem pena da filhinha dele.
Não havia nada de especial naquela sexta na verdade, nem sei o que me levava a pensar em algo, sabe quando tu para e pensa nas coisas? Bom acho que era isso, de vez em quando paramos pra pensar na banalidade das coisas e nas pessoas com as quais passamos tanto tempo, sabemos tanto a respeito delas, mas ainda é como se nada soubéssemos delas, como se não fossem parte de nossa vida, são apenas colegas de trabalho e nada mais só que passamos mais tempo com essas pessoas do que com a nossa própria família, era estranho.
Por exemplo a Dona Julia, esposa do Dr(Que não era doutor, mas adorava o tratamento) Roberto, mulher de 40 e poucos anos, nunca tive certeza da idade, era infeliz no casamento, incapaz de trair o marido, apesar dele a trair com qualquer coisa que não tivesse um pênis no meio da perna e ainda assim eu tinha as minhas dúvidas se ele não saia com travestis, e mesmo tendo um casamento infeliz, um casal de filhos que eram só dor de cabeça, Felipe era viciado em drogas, Amanda era namorada de um juiz corrupto que vendia sentenças, ela era capaz de ser gentil comigo, um simples office, sabia o meu nome, perguntava se eu não estava precisando de nada, me aconselhava a tomar cuidado no transito, me incentivava a estudar e ser um bom cidadão.
Eu gostava de Dona Julia, tinha um pouco de pena dela, tinha vontade de dizer pra ela largar o marido, internar o filho e incentivar a filha a denunciar o namorado pra ele ir preso.
Mas no máximo o que eu falava era sim senhora, não senhora, pode deixar que eu tomo cuidado e agradeço a atenção Dona Julia, mas não se incomode comigo não.
A sexta feira corria como toda sexta feira, sabe aquela aura de felicidade das pessoas, casa, descanso, paz, ficar longe dessa droga de empresa, esse era o Juliano Supervisor de vendas. Juliano estava sempre se maldizendo e reclamando das baixas vendas de seus subordinados, embora eu soubesse que só de comissão ele recebia uma bolada e nunca repartia nada com os vendedores, caso eles batessem suas metas, ele era um dos que não sabiam e nem tinham interesse em saber meu nome, nunca olhava ou me dava um simples bom dia, sempre falava mal de pobres só que eu sabia que sua mãe e irmãos moravam de aluguel e ele teve uma infância muito pobre, hoje ele ignora a família e não ajuda a mãe doente.
Juliano sempre dava em cima de Roberta a recepcionista, sempre linda e bem maquiada em seus deslumbrantes 25 anos, sabe aquele mulherão mesmo de parar o transito?
Sabe vários idiomas, está fazendo um mestrado(assim ela conta) não dá bola pra ninguém aqui da empresa e fala que tem um namorado rico, eu juro que tento entender a Roberta, ela faz programas nos finais de semana, o tal namorado rico bate nela e acho que é cafetão da coitada e até onde eu sei ninguém da família dela aceita mais ela em casa depois que souberam que ela fazia programa.
Não sei o motivo de pensar em todas essas coisas hoje, vai ver é essa aura de felicidade por algo tão bobo quanto um final de semana, não sei ao certo só o que sei é que nesse final de semana vou fazer um bico de garçom pra pagar umas contas, afinal de contas é só um final de semana como outro qualquer.
Talvez um dia desses eu junte uma grana pra sair e beber com o Fernando, quem sabe eu diga pra Lurdinha procurar coisa melhor pra ela, ou fale pro Oscar aprender meu nome é assumir que é gay.
Talvez ajudar o Luís a arrumar outro emprego e apresentar a filhinha dele é a esposa pra gente, desse um abraço na Dona Julia e agradecesse toda a gentileza e afeto que ela demonstra por minha pessoa.
Ou quem sabe eu desse um soco no Juliano e mandasse ele parar de ser covarde e sem vergonha e fosse ajudar a pobre mãe doente já que ele poderia fazer isso.
Ou desse um afetuoso abraço na Roberta, contasse o que ela parecia não saber, que ela era linda e inteligente, não precisava se submeter a um safado que batia e explorava ela.
Não sei, só sei que já são 10 para as 5 e está perto de bater o ponto, pegar a velha moto 97, encarar o transito infernal e chegar no meu barraco e dormir, afinal de contas era apenas mais uma sexta, mais uma sexta que eu ia pra casa pensando na mesma coisa que pensei na sexta da semana passada.
E isso já faziam pelo menos cinco anos, cinco anos que eu pensava em pedir demissão, mas não sei ao certo por que continuava esperando, sempre aguardando que na próxima sexta as coisas fossem diferentes, quem sabe na próxima eu tome coragem, quem sabe