sexta-feira, 30 de setembro de 2011

2:15 - Parte 3...


Abri meus olhos na esperança de acordar em minha cama, acordar de um pesadelo, e claro que isso não durou nem um segundo já que era uma criança que estava me acordando, dei um pulo pra trás de susto, ele fez um sinal de calma e puxava o meu braço, eu ainda estava grogue por conta do desmaio, minha cabeça estava doendo e a pancada que levei ao desmaiar não ajudou muito.
Havia certo desespero nos olhos da criança, olhei para onde vi a pobre mulher ser devorada e não restava nada, acho que as crianças monstro se cansaram de brincar e deram um fim ao que restava dela, a criança continuava puxando o meu braço, eu ainda estava no chão do café o cheiro podre havia passado, não que o cheiro do ar fosse muito melhor, tentei levantar, mas estava com as pernas bambas, minhas roupas estavam agora sujas de vômito, era tudo o que eu precisava agora, pensei ao tentar “limpar” aquela sujeira.
A criança continuava puxando meu braço, então tentei levantar para seguir ela, mesmo porque apesar de grogue eu sabia que não estava no lugar mais seguro do mundo, e os olhos aflitos daquele menino também me diziam isso.
A gente saiu pelos fundos do café, em um tipo de beco, o menino seguia na frente, perguntei qual era o nome dele, ele fez um sinal de silêncio e continuamos andando, ele abriu um buraco de bueiro no final do beco e desceu, era só o que me faltava mesmo entrar em um esgoto, mas ao lembrar o meu estado e do que andava na cidade que escolha eu tinha, e desci no bueiro...
Esperava achar ratos, baratas, mas comparado as ruas os esgotos pareciam até mesmo ter um ar melhor, não havia uma gota de qualquer tipo de liquido, apenas pedras, não era muito iluminado, mas ao pensar nisso o menino acende uma lanterna grande e faz sinal pra seguir ele.
 Continuamos andando por o que em pareceu ser uma eternidade, virando , descendo, subindo por entre as galerias, eu nem sequer pensei muito a respeito, minha cabeça doía demais, e a idéia de estar andando toda suja e com a roupa suja de vômito me incomodava bem mais do que qualquer outra coisa naquele momento.
Então chegamos a uma grande porta e o menino falou no meu idioma:
- Chegamuu em casa...
- Desde quando você fala o meu idioma? Perguntei.
- Dioma? Du que a moça ta falandu?
- Deixa pra lá menino, você tem um nome? Perguntei isso ajudando o menino a abrir a porta.
- Jonas, mas podi chama de Stickman, e meu apelidu, so magrinho sabe...
Abrimos a grande porta e dentro havia o que deveria ter sido uma estação elétrica, com maquinas antigas e que acredito que não funcionassem há séculos pelo aspecto, mas estava tudo muito arrumado e limpinho, o que me lembrou do meu estado...
- Tem algum lugar onde eu possa tomar um banho Jonas?
- E Stickman, não gostu do meu nome, tem sim moça naquela porta ali.
Falou me apontando com o dedo.
- Vou pega uma coisa pa moça cuidar da cabeça, ta saindo sangue e isso pode infecionar..
- Infeccionar você quer dizer não e mesmo?
Falei isso sorrindo pra ele.
- Foi o que eu disse infecionar...
- Está bem então, me deixa tomar um banho Stick.
Era um banheiro muito simples, mas quem se importava, tinha água, fato que me deixou muito feliz e até um shampo havia, passei uns dez minutos em baixo da água até que o Jonas bateu na porta e falou.
- Ta aqui na porta moça, e tem uma toalha...
- Obrigado Jonas – Gritei.
- E STICKMAN...
Resmungou ele do outro lado, fato que me fez sorrir.
Depois de passar uns 30 minutos tomando banho fui olhar o corte na minha cabeça, não era algo muito profundo, mas estava doendo, fiz um curativo da melhor maneira que deu e sai.
O pequeno Stick estava sentando em uma cadeira no canto perto de uma cama, ele tinha arrumado umas três calças jeans e algumas blusas em cima da cama para mim, ele estava chorando e não percebeu quando eu cheguei perto.
Abracei-o e falei:
- Calma mocinho, você passou por muita coisa ruim hoje, pode chorar...
Para a minha surpresa ele da um pulo e fala alto:
- Não estou chorando não, eu sou homi, e homi não chora, minha vó que me ensinou, estou com raiva, com muita raiva, aqueles bichu vão pagar...
O pobrezinho mal conseguia falar, acho que ele não tinha nem sete anos direito, eu abracei ele de novo e então ele começou a chorar e soluçar muito...
- Minha vó, eu quero... Quero ela de volta, ela nun fez nada, ela... Era tão boazinha comigo, com todo mundo, quero ela de volta...
Fiquei abraçada e passando a mão na cabeça dele até ele parar de chorar, e então disse:
- Agora e hora de você ir tomar um banho mocinho e vestir uma roupa limpa ta certo?
- Tem algo pra se comer aqui, se tiver eu faço algo pra nós dois comermos.
- Tem ali O, e apontou o lugar onde deveria ser a cozinha.
- Ok agora banho pra você Stick, eu vou fazer algo pra nós dois.
- Ta certuu moça, e sorriu.
- Meu nome e Andressa, prazer Stick – e estiquei a mão pra ele apertar.
- Andr... Andressssaaaa, Andresssaaa, prazer – E mais uma vez sorriu e entrou no banheiro.
Quando ele terminou e vestiu uma roupinha com cara de bem velhinha, mas pude finalmente ver como era um garotinho lindo, tinha sardas no rosto, de fato era bem magrinho, mas acredito que isso se deve mais a dieta magra daquele lugar do que a outra coisa, o fato que me chamou a atenção era que os olhos dele tinham duas cores, um era azul e o outro castanho...
- Bom fiz o melhor que pude Stick, purê de batatas enlatadas e algumas almôndegas enlatada, nada muito saudável, mas fiz o melhor que pude...
- Ta otimuu Andresssaaa...
Falou isso com um grande sorriso, o que me deixou feliz por algum motivo.
Embora eu tivesse fome mal tive coragem de comer aquelas coisas, estava mais preocupada em saber onde diabos eu estava e comecei a perguntar.
- Stick querido, você sabe me dizer onde nós estamos?
- Sei sim Andress (Ele respondeu com a boca cheia de purê) em casa...
- Sim querido eu sei, mas digo que cidade e essa, como a gente veio parar aqui, o que são aqueles monstros?
Ele parou por um instante e perguntou:
- Vai comer esse mondega? Se não for me da purr favo?
- Claro querido, coma tudinho.
Dei a comida e continuei perguntando e ele responde finalmente:
- Não sei não Andresssa, minha avó e que sabia dessas cosa, mais você pode ver no quarto tem uns recortes na parede e umas fotas, fica ali O...
Fui ao quarto da avó do Stick, minha cabeça voltou a doer, o quarto dela era bem simples mas até bonito na verdade, tinha uma mesinha e nas paredes muitos recortes de jornais antigos, todos falavam sobre uma invasão e uma guerra, imagens de monstros, uma resistência...
Mas um recorte de jornal me chamou a atenção, nele um Homem muito bonito com uma roupa do tipo que generais usam falava algo, na reportagem em negrito estava escrito:

General Victor busca acordo de paz com invasores – 09/15
O grande potentado discursou hoje em Palanx buscando um acordo de paz com os invasores:
“Temos que buscar um entendimento com as forças invasoras, essa guerra já consumiu quase todo nosso planeta e eu acredito que podemos chegar a um consenso para acabar com a essa insanidade e como ato de boa vontade para com os invasores vamos desligar os escudos de Naax para provar que estamos dispostos a negociar.”
O restante estava ilegível, havia muitas fotos do Victor sobre a mesa da Avó do Stick, e então ele entrou no quarto.
- Acho alguma coisa Andressssa?
- Sabe quem e esse homem Stick?
- Sei sim, minha vó disse que tudo ta ruim assim por causa desse homi ai, ele que trouxe esses bixu pra matar todo mundo, eu não gosto dele...
Era estranho como aquele homem me era familiar algo me chamava à atenção naquele rosto, talvez os olhos, mas havia questões mais urgentes a tratar no momento e eu continuava sem saber de quase nada.
- Stick querido, existem mais pessoas vivendo aqui em baixo com vocês, amigos, parentes, conhecidos?
- Naum tem mais naum, foi todo mundo embora com medo dus bixo vir aqui, só ficou eu é a Vó, agora só tem eu e você, você vai ficar né?
O menino fez essa pergunta com os olhos cheios de esperança, como eu podia responder essa pergunta, eu não podia deixar ele sozinho ali, mas não podia ficar também, tinha a minha vida a retomar e principalmente sair daquele pesadelo.
Vou ficar com você sim Stick(respondi) não vou te deixar só não, mas preciso de respostas...
- Bom a Vó sempre falava desse luga aqui O...
Stick pegou um tipo de diário e abriu, dentro havia um cartão de identificação com a foto da Avó do Stick que dizia:
“NÍVEL DE ACESSO 10 – NAAX”
“ELEONOR THOMPSON – ENGENHEIRA QUIMICA ALPHA++”
E no e mail:
O código de acesso continua o mesmo, OMEGA 7884, você tem que entrar em Naax pelas entradas secundárias já que e impossível desligar o sistema de segurança das entradas principais desde a primeira onda de ataque, Victor não tomou a cidade, o que prova que o nosso escudo e de fato efetivo, o problema e que a cidade continua sitiada justamente por conta disso, o local de encontro e no antigo Rancho Vivian, tenho certeza de que você ainda se lembra.
Bom meu amor espero ver você em breve, tome muito cuidado e não confie em ninguém, não sabemos o que Victor tem feito no berçário e que tipo de aberrações ele pode ter criado.
PS: Encontrou o menino de que você falava? Te amo...
Naax bom não era muita coisa, mas pelo menos já era alguma coisa então perguntei.
Stick você sabe se por aqui tem algum mapa?
- Sim ali O – Ele apontou para um mapa no canto da parede que estava marcado e para a minha felicidade o tal Rancho estava lá com um alfinete e a tal cidade, quem daria um nome idiota desses pra uma cidade, mas enfim...
Não me pareciam distantes e bom eu não pretendia ficar morando em um esgoto com monstros na minha cabeça então disse:
- Stick eu não vou abandonar você querido, mas você vai ter que me ajudar em uma coisa.
- Você quer ir pra lá né? Essa cidade que a vó queria me levar?
- Bom não podemos ficar aqui você não acha?
- Eu sei, eu e a vó estávamus indo pra lá por isso tivemos que subir na rua pra pegar o que ainda tinha nos mercadu...
- Você sabe como sair dessa cidade?
- Sim, a vó me fez estudar isso (apontando pro mapa) por dias, purque se algum bixu pegasse ela eu ia ter que ir sozinho, mas agora vou com você – E ele mostrou mais uma vez seu lindo sorriso.
-Bom meu querido então vamos pegar o que a gente puder levar e vamos assim que a gente dormir um pouco tudo bem pra você?
- CERTUUUUUU...
Coloquei o pequeno Stick pra dormir cantando algumas músicas de ninar antigas que sabia e ele adormeceu rápido, peguei o diário de Eleonor e dei uma rápida olhada...
08/10
“O berçário vai ser a fonte de uma grande revolução no que diz respeito à medicina, ainda não temos nem sequer idéia do potencial dessa maravilha que criamos, mas o Potentado Victor tem uma visão extraordinária sobre até onde podemos chegar, e acredito que vamos conseguir executar os testes em humanos em breve, só imagino a felicidade dessas pessoas que perderam um braço ou perna em ter eles de volta...”

Havia muita coisa técnica no diário que eu não entendia absolutamente nada, nossa como eu estava cansada, precisava dormir então algo me chamou a atenção no diário.
02/14
“Estou ansiosa por esse dia, vamos iniciar o teste em humanos, o primeiro passo e recriar as pernas de uma garotinha chamada Emilly, ela nasceu sem as pernas e acredito que vamos conseguir, o processo se inicia pela manha e todos estão otimistas sobre os resultados.”
“Victor disse que não iria dormir naquela noite e iria ficar no laboratório para verificar alguns testes, espero que tudo de certo, preciso dormir amanha vai ser um dia glorioso que vai entrar para a historia”
02/15
Todos os procedimentos indicaram que tudo daria certo, as imagens mostram que Emilly reagiu bem ao processo e as pernas delas foram recriadas, mas algo saiu errado, a garotinha começou a sofrer de fortes dores e perdeu o controle, a sala do berçário foi tomada por um odor horrendo de metal, as pessoas que estavam do lado de dentro se tornaram seres deformados, o berçário foi evacuado, para a minha surpresa o prédio já estava cercado pelo exercito e Victor estava a frente garantindo que nada entraria ou sairia dali sem a permissão dele.
Bom fosse quem fosse esse Victor ele era uma peça chave dessa loucura, mas eu no momento só queria dormir e não pensar em nada...
Engraçado...
O relógio estava marcando 2:16...
E então adormeci...

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

2:15 - Parte dois...


Havia acabado de acordar, a noite tinha sido cheia e cansativa, odeio quando meu agente marca esses eventos beneficentes, ele fala que e bom pra minha imagem e que me da visibilidade, que bobagem quem se importa com um bando de mortos de fome em alguma favela latino americana ou tribo africana? 
Tudo que se tem nessas festas são velhos gagas e ricos dando em cima de mim, como seu eu precisasse desses tipos pra alguma coisa, pelo menos o champagne era do melhor, fiquei rodando pela festa por uns 40 minutos, falando com embaixadores e suas esposas, polidas e igualmente venenosas, alguns empresários, políticos de primeiro escalão e os seus odiosos vermezinhos que chamam de assessores. 
Como eu dizia a festa estava um tédio monstro e eu falei para o meu agente (que usava um terno ridículo, diga-se de passagem) que só ficaria mais uns dez minutos e depois ia embora, amanha eu teria que participar de mais um desses eventos idiotas em alguma favela e se já tinha agendado isso, bom que pelo menos eu pudesse tomar uma boa dose de calmantes antes de encarar... 
Foi quando eu notei um homem muito bonito na sacada de vidro do salão onde estava sendo realizado a festa, bronzeamento artificial, com seus 1.90 e olhos de um azul perfeito, tinha um ar de mistério e um jeito sério, mas ao mesmo tempo encantador. 
Cheguei próxima da sacada enquanto meu agente falava com dois políticos e eles riam muito: 
- Gostando da vista? – Perguntei sem olhar pra ele. 
-Na verdade não gosto muito de São Paulo e uma cidade muito estranha, está gostando da festa? 
- Já estive em melhores e você Sr? 
- Perdões pela minha falta de educação me chamam Victor e vejam que sorte a mundialmente famosa Andressa Sanders não e isso? – Falou isso enquanto beijava a minha mão no melhor estilo cavalheiro, como ele era lindo. 
- Vejo que está tão entediado quanto eu não e verdade Sr Victor? 
- Existem lugares bem mais interessantes de se estar senhorita, não concorda? – Ele não perde tempo, pensei. 
- Com certeza sim, mas, por favor, não precisa me chamar de senhorita, Andressa já está perfeito. 
- Como queira Andressa, seria atrevimento demais eu convidar você para um lugar bem mais interessante? 
- Tipo onde? - perguntei com um sorriso no rosto. 
- Uns amigos estão dando uma festa em uma velha mansão aqui perto, são pessoas bem interessantes e divertidas e prometo nada de políticos dando em cima de você por lá...  
Eu não pude conter meu riso que foi notado por alguns no salão que olhavam para nós com aquele olhar de altivez típico. 
O convite era tentador demais, mas eu não sabia quem era aquele homem, mas não sei explicar, me sentia atraída por um completo estranho e estava adorando, aqueles olhos e o sorriso tímido mas sincero eram perfeitos demais e no final das contas iria sair daquela festa idiota... 
- Vamos para um lugar onde os sonhos são tão reais quanto a sua beleza, onde o mundo e de fato real, vamos encontrar o real sentido de tudo, o que me diz minha bela dama? 
- Uma mansão antiga não e mesmo, com muitas drogas pressuponho? – eu sorri ao dizer isso e ele me responde chegando perto do meu ouvido. 
- Jamais levaria você para um lugar desse tipo, o que tenho e bem melhor... 
Nesse momento qualquer mulher inteligente e esperta ligaria seu sentido de perigo ao máximo, oras mas eu era uma grande modelo e estava sendo vista em uma festa onde políticos e grandes empresários nós viram juntos e até onde sei o homem mais perigoso naquele recinto no máximo poderia me matar de tédio e alguma coisa naquele homem me passava segurança, eu estava perdida por aqueles olhos e certamente estaria com ele ao amanhecer. 
- Mas tenho que avisar meu agente pelo menos pra onde estou indo, não posso sair sem dizer pra onde vou, ainda mais no Brasil. 
- Já tinha pensado nisso Andressa... 
E ele foi até o meu agente e conversou com ele por uns 2 minutos e logo o meu agente chegou perto de mim e falou: 
- Andressa só lembre que tem que estar amanha no desfile, sem atrasos, tenho certeza de que está bem “pageada” pelo Sr Victor. – E ele piscou o olho pra mim, nossa que cara mais ridículo, enfim... 
Saímos da festa quase sem ser notados, o que era estranho, mas não importava no momento, na verdade eu não conseguia pensar em quase nada que não fosse aqueles olhos azuis, chegamos ao carro e ele abriu a porta para mim e deu a volta rapidamente. 
Conversamos sobre algumas coisas no caminho como que tipo de música eu gostava, se a vida de modelo era tão cansativa quanto parece, perguntei o que ele fazia, e tinha mais ou menos algo a ver com encontrar talentos mundo a fora, mas eu não prestei atenção ao que ele dizia e sim aos lábios dele que naquele momento era o que eu mais desejava, além e claro dele. 
Chegamos a uma mansão onde estava tendo um tipo de festa, haviam seis seguranças enormes na entrada e mais alguns outros rodeando a casa, nossa naquele momento eu realmente não sabia o que pensar, imagine uma festa com pessoas que não era nada abaixo de perfeitas, me senti o patinho feio da festa pela primeira vez em anos. 
Lindas mulheres e homens, quase todos tão belos quanto Victor, muitos sorrisos, um grande buffet com todo tipo de iguaria e um lindo porquinho que parecia muito apetitoso sobre a mesa principal além de muito vinho e champagne, nossa a casa era perfeita se aquilo era uma velha mansão pro Victor eu gostaria muito de ver uma recém construída, estava me sentindo em filme e quem sabe não estivesse. 
Ao entrar todos me cumprimentavam e me elogiavam, que adoravam o meu trabalho, Victor me falou que iria preparar algo e voltaria em alguns minutos, algumas daquelas mulheres que mais pareciam ter saído de desenhos da Disney de tão lindas e perfeitas ficaram me dizendo o quanto eu era sortuda por estar com Victor e que era difícil ver ele com alguma mulher a muito tempo, os homens da festa apenas passavam e me elogiavam rapidamente, a festa continuava, me serviam champagne que apesar de ser do mesmo que havia na festa beneficente parecia bem melhor ali. 
Todos na festa por algum motivo pareciam prestar atenção em mim, as mulheres não paravam de me elogiar a todo instante, muito embora perto de qualquer uma delas eu era uma daquelas faveladas das fotos da festa beneficente. 
Alguns minutos passaram e Victor apareceu novamente e chamou todos para entrar, pois a festa de verdade iria começar. 
Ele veio e pegou em minha mão e entramos juntos, eu não sabia nem o que pensar, como eu estava maravilhada com tudo aquilo. 
Era uma sala grande e redonda, todo mundo ficou esperando Victor entrar, ainda haviam muitos sorrisos e conversas de todo tipo e então se fez o silêncio assim que Victor levantou a mão... 
- Bom meus caros mais uma vez estamos aqui em celebração, pois temos a missão de conquistar o mundo novamente não e mesmo? 
Todos sorriram e eu sorri junto, claro sem entender do que se tratava... 
Todos os anos temos a oportunidade de nós reunir e comemorar nossos progressos e eventualmente, quando temos sorte, encontrar um novo membro para a nossa família, e por esse motivo que eu reuni todos aqui, para apresentar a todos Andressa. 
Eu estava perplexa, do que diabos ele estava falando acabamos de nós conhecer, então ele estende a mão me convida para o centro da sala onde ele se encontra, eu vou na direção dele e ele me abraça e fala ao meu ouvido: 
- Não tenha medo, eu escolhi você. 
Então ele se vira e continua: 
- Todos aqui sabem das dificuldades que passamos, bem como as nossas privações por vagar por tanto tempo, e o quanto precisamos de iguais conosco, gente que pense viva e concorde com nosso estilo de vida e objetivos em comum. 
Temos pressa, temos desejos, temos fome... Fome de vida, de muitas vidas, sempre mais... 
Eu continuava sem entender do que Victor falava, olhei novamente para a sala e estranhamente as pessoas perfeitas já não eram mais tão perfeitas, suas roupas estavam ficando encardidas, seus rostos antes tão belos e magníficos estavam se transformando, então Victor me vira e eu encaro sua face... 
O horror toma todo o meu corpo, os belos olhos azuis e o sorriso tímido se foram, no lugar dos olhos não existe nada além de uma luz azul e negra, seu rosto deformado expressa o que talvez fosse um sorriso, mas os dentes dele são como serras, pelo menos três fileiras de dentes, seu corpo está bem maior do que antes, mais músculos e para o meu completo horror mais braços nas costas... 
Me seguro para não desmaiar, tento gritar mas não sai nenhuma voz, estou paralisada, Victor (ou seja lá o nome daquela coisa) me vira para os convidados... 
MONSTROS... 
O cheiro da sala que antes parecia o próprio paraíso se tornou algo podre e metálico, muitos rostos retorcidos expressavam o que parecia ser alegria, era uma festa afinal não e mesmo? 
Andressa a muito tempo espero por você minha amada, junte-se a nós, seja a minha rainha nesse novo mundo... 
E então Andressa qual a sua resposta? 
Eu não consiguia falar nada, nenhuma palavra saia da minha boca, o que esse monstro quer afinal? 
Vo.. você...  O que quer de mim? Vai me matar? 
- Matar você, não seja tola minha cara, demorei anos, séculos talvez em busca de alguém como você, alguém que pudesse e estivesse a minha altura para ser a minha esposa, para ser a rainha de um novo mundo, um mundo onde iremos reinar e dominar de acordo com nossa vontade e desejo. 
- Mas você e um monstro, meu Deus, um monstro... 
- A sim e claro, um monstro, tanto quanto você Andressa, TRAGAM UM ESPELHO AGORA... 
Rapidamente trouxeram um espelho e Victor brada: 
- OLHE E ME DIGA QUEM E O MONSTRO. 
Gelo substituiu meu sangue, não podia ser verdade, eu estava enlouquecendo, aquilo era um pesadelo, mas no espelho eu via um monstro tão deformado quanto os demais da sala, olhos com um brilho azul e negro, muitos dentes... 
- Fique comigo Andressa, juntos vamos dominar esse mundo e fazer dele o que desejarmos...    
 - NÃOOOOOOO, EU NÃO SOU UM MONSTRO, EU NÃO QUERO SER COMO VOCÊS, ME RECUSO, ME TIREM DAQUI, SOCORROOOO... 
E sai correndo, os outros não tentaram me impedir, eu esbarrei na mesa de buffet e mais uma vez o horror... 
Não haviam iguarias sobre a mesa, haviam restos de pessoas em tigelas, uma bandeja com olhos humanos, no lugar do lindo porquinho assado uma criança, meu Deus uma criança... 
Assim eu continuei gritando e tentei fugir daquele pesadelo o mais rápido possível, todos haviam saído da sala e olhavam com curiosidade e sorrisos malignos, apenas Victor permanecia calado, e então ele levanta a mão e o silencio impera novamente... 
Três monstros enormes me param e me levam de volta a festa sem muito esforço e me colocam diante do monstro chamado Victor. 
Ele me olha com aqueles olhos terríveis, parece desapontado embora não tenha certeza, o rosto dele e horrendo e aqueles dentes, então ele fala: 
- Você vai ter tempo para se decidir Andressa, normalmente eu já deveria ter matado você por estar recusando meu pedido, mas demorei tempo demais para te encontrar e não pretendo abrir mão de você, mas e uma pena que você tenha escolhido esse caminho, pois o caminho que você vai trilhar antes de retornar aqui e de muita dor... 
Então levo um soco, tão forte que achei que meus olhos saltariam das orbitas, caiu quase desfalecida no chão, mas ainda estou acordada, acordada para ouvir e ver algo... 
- O vazio te espera Andressa (falou Victor), em breve vamos nos reencontrar e ai você vai estar pronta para decidir... 
Cuspi sangue e alguns dos dentes que eu tinha (que eram muitos agora), ouvi muitos sorrisos e uivos, havia um relógio em uma das paredes, eram 2:15 da manha, e então eu levo mais um golpe, dessa vez na cabeça e então o vazio... 

2:15 - Parte um...


Minha cabeça estava doendo muito, acho que havia um corte nela, mas era como se tivesse sido há muito tempo, mas ainda assim latejava de vez em quando, como se fosse pra me lembrar que ainda estava ali, onde eu estava e onde estavam as minhas roupas?
Eu estava vestida de um trapo imundo, meu cabelo que estava sempre tão limpo parecia que havia passado por um furacão, além e claro de estar todo impregnado de um pó vermelho e cinza, minha garganta doía de sede, nossa há quanto tempo estou aqui, será que fui seqüestrada? Eu me perguntava como se alguém fosse responder...
Resolvi olhar ao redor e no canto havia um velho relógio marcando exatamente 2:15, para a minha surpresa eu estava descalça e a minha pele estava toda escura como se estivesse queimada mesmo, mas acredito que isso era por conta da sujeira do local.
O salão onde eu estava era grande acredito que era destinado a festas ou eventos e tinha uma passarela do tipo que eu conhecia tão bem, afinal eu era uma modelo de sucesso internacional, mas era estranho, estava tudo com cara de que ninguém pisava ali a décadas, tudo estava sujo com o mesmo pó vermelho e cinza que tinha no meu cabelo e com cara de que havia passado por um incêndio...
Continuei a caminhar e encontro um par de sandálias velhas em baixo de uma pilha de roupas que pareciam ter sido bem elegantes, mas agora eram pouco mais do que os trapos que eu vestia, peguei as sandálias e fui em direção a porta de saída, as paredes tinham muitos símbolos estranhos, minha cabeça começava a latejar de novo, por Deus como eu gostaria de um pouco do meu prozac agora...
Ao abrir a porta de saída foi onde eu de fato me assustei de verdade, e claro que o dia até aquele momento não tinha sido meu melhor dia, mas como eu poderia estar preparada pra tudo aquilo?
A cidade estava totalmente destruída, o céu era de um vermelho e cinza assustadores, era como se a cidade tivesse passado por um incêndio gigante, mas parecia ter sido a tanto tempo que isso tornava a coisa ainda mais assustadora...
Onde eu estava afinal?
Eu me lembro que há poucos minutos eu estava pronta pra desfilar, era a nova coleção de langerie e eu era o centro das atenções naquele dia...
Eu estava sonhando ou melhor tendo um pesadelo, será que os remedios tem esse efeito colateral, mas se eu estava sonhando porque a minha cabeça latejava tanto?
E porque eu sentia toda aquela sujeira no meu corpo que estava todo sujo e aquele ar com gosto de metal que doía ao se respirar, onde eu estava?
Comecei a caminhar e pensar que eu teria muito que conversar com o meu psicólogo, psiquiatra, consultor espiritual ou qualquer coisa que o valha, nossa eu daria o meu apartamento em NY por um banho e um chá gelado...

Continuei caminhando pela avenida e pensando em como eu estava suja e vestida com aqueles trapos então nossa que terrivel, não havia muito para se ver, só restos de carros e fachadas caindo ou por cair, os grandes prédios quando não estavam pela metade estavam por ruir, era como se tudo tivesse passado por uma grande guerra, a sujeira na minha pele não saia, droga e se essa coisa manchar a minha pele?
Caminhei por pelo menos o que pareceu uns trinta minutos, haviam alguns relógios pelo caminho, estranho haver relógios por ali, todos marcavam 2:15, minha garganta estava seca como um deserto, entrei no que parecia ser uma antiga loja de café, não tinha muita coisa ali, mas encontrei uma velha lata de um refrigerante, eu não conhecia a marca, mas não importava, para a minha surpresa não tinha pouco mais do que um gole de um liquido doce dentro da lata, mas era melhor do que nada...
De repente escuto alguns gritos extremamente estridentes, me escondo por trás do velho balcão do café, do outro lado da rua uma mulher que aparenta ter uns 50 anos com uma criança cai na calçada e grita em um idioma que eu desconheço gesticulando freneticamente para a criança continuar, a criança chora e não quer ir, então a velha da um tapa na cara dela e continua mandando ela ir embora .
A criança corre e se esconde no que deve ter sido uma loja de departamentos, criaturas chegam em um grupo de três, eu não consegui entender bem o que elas eram, criaturas disformes de uns dois metros de altura, o cheiro delas era muito forte, uma mistura de metal e algo podre, tinham coisas que saiam das costas delas que pareciam ser braços, não vejo seus rostos, pelo menos eu não conseguia ver de onde eu estava, só sei que não importava o que aconteceria, eu não sairia de onde estava nem que fosse a minha mãe naquela calçada, as criaturas cercaram a mulher e comecei a ouvir o que parecia ser guinchos e a mulher chorava em desespero, uma das criaturas pisou na cabeça da velha e mais gritos, tanto de dor quanto os guinchos da criatura...
E então o silêncio, apenas os lamentos da velha, eu estava paralisada de medo, onde eu estava o que estava acontecendo?
Eu precisava sair daqui o quanto antes, mas não conseguia mover um músculo nem que a minha vida dependesse disso, e que se aquelas coisas me ouvissem acho que seria esse o caso...
Uma das criaturas foi até a esquina de onde tinha vindo e gesticulou como se tivesse chamando algo, e então para a minha surpresa um grupo de nove crianças, todas andando em grupos de três e absurdamente limpas e bem arrumadas.
Do local onde eu estava não dava pra ver elas muito bem, o que aquelas crianças estavam fazendo ali e ainda mais com aqueles monstros, cada uma estava vestida com um tipo de fantasia, uns com roupinha de marinheiro, outros soldadinhos, duas meninas com uma roupa de fada e uma de princesa, mas eu não conseguia ver os rostos delas.
A velha continuava caída no chão e chorava, as criaturas se afastaram e a velha foi cercada pelas crianças, ela começou a soluçar.
DEUS EU TENHA QUE SAIR DAQUI, mas as minhas pernas não deixavam.
As crianças fizeram uma ciranda ao redor da velha e começaram a girar e cantar algo, mas eu não entendia o que elas cantavam, elas riam alto, nossa como eram bonitas, mesmo de longe se notava isso, ainda assim não consegui ver nenhum rosto, as criaturas apenas observavam...

Um odor imundo tomou conta do ar, me segurei para não vomitar, mas não consegui, a velha soluçava e naquele idioma estranho parecia pedir por clemência, as crianças sorriam...
E então as crianças do nada se transformaram em coisas tão assustadoras quanto as criaturas que as rodeavam e pularam em cima da velha, não pude olhar a cena só escuto os gritos de dor...
Em menos de 30 segundos não restava nada da velha, ou quase nada, deixaram a cabeça e voltaram ao normal, tão lindas e fofinhas como eram antes, e começaram a “brincar” com a cabeça do que um dia foi uma senhora...
Antes de desmaiar notei que tinha um relógio na parede do café, eram 2:15...

Apenas um sonho...


A noite tinha sido perfeita, havia levado a minha esposa pra um restaurante dos melhores da cidade, ela  estava perfeita como sempre, era o nosso aniversario de 10 anos de casados e sinceramente ela continua tão linda como no tempo que eu a conheci, cabelos ruivos, olhos escuros, pele branca, ela usava um vestido lindo, e olha que eu quase nunca noto essas coisas, mas ela estava perfeita nessa noite.
Fizemos amor por horas, pra um casal com 10 anos de casado acho que isso ainda está muito bom, nossa como ela estava linda...
Acordei umas 5:30 como de costume, o dia ia ser corrido e eu não podia perder muito tempo, trabalho em uma multinacional e a minha esposa em outra, a vida andava bem, ganhávamos muito bem, éramos pessoas bem sucedidas na vida, me arrumei, tomei café e deixei o dela pronto, deixei também uma rosa e um cartão escrito “EU TE AMO” junto ao café e fui trabalhar...
Sai no meu BMW novinho, a vida ia bem, estávamos terminando de pagar nossa casa, andávamos de carros novos, e inclusive planejávamos um filho para o próximo ano, se não houvesse nenhum contratempo, a vida andava estranhamente perfeita demais, mas quem ligava?
A cinco anos eu nem imaginaria que estaríamos tão bem, estávamos a beira de uma separação, minha mãe havia acabado de falecer e o pai dela estava bebendo de novo, haviam os problemas financeiros, quase perdemos nossa casa nessa época.
E engraçado como as coisas mudam tão rápido na vida, a esqueci de dizer o nome dela, ela se chama...
AAAAAAAAAAAAA
Gritos na pista, vários carros parados, o que diabos?
Um clarão e seguido de várias explosões, os gritos agora vem de todos os lados, fumaça, gritos e mais explosões...
O que diabos está acontecendo?
Avisto de longe um ônibus escolar em chamas e horrorizado vejo que ele não estava vazio, pequenos rostos disformes encostados na janela, mais explosões,  e do nada não existe mais nada na estrada, na verdade não existe nem estrada, meu BMW novinho não passa de um monte de ferro retorcido, minhas roupas são apenas trapos, minha esposa, MEU DEUS MINHA ESPOSA...
Corro pra entrar em casa (Como diabos eu vim parar na frente da minha casa?) e começo a gritar por...
Eu não lembro o nome dela, Meu Deus eu não lembro o nome da minha própria esposa que eu tanto amo...
As casas ao lado da nossa antes tão imponentes agora não passam de monturo, nem sei como a nossa ainda está de pé, AMOR – Eu grito ao entrar em casa...
Subo as escadas que parecem que passaram por um incêndio, mas isso parece fazer tanto tempo, quanto tempo? Como e o nome dela?
Entro no quarto e só encontro lixo, trapos com sangue envelhecido, símbolos estranhos pintados na parede e um odor de mofo e poeira que mal me permitem respirar, COMO E A PORRA DO NOME DELA – eu penso em voz alta...
Vejo uma carta em cima do que um dia foi uma mesinha, empoeirada e meio fustigada pelo fogo, mas ainda assim da pra ler...
E a letra dela, tão pequenininha e linda como tudo nela, ainda tento sentir se tem um pouco daquele perfume que ela tanto gostava, mas não resta nada além de pó...
Escuto passos e gritos lá em baixo, mas eu não me importo, leio a carta...
“Eu sinto muito, mas não da mais pra continuar com essa farsa, quero o divorcio...”
Três criaturas derrubam o que resta da porta, eu nem sei descrever o como essas criaturas eram horríveis, mas ainda não me importo, só quero lembrar o nome dela...
Elas gritam algo que eu não entendo, me apontam uma arma...
Acho que ela se chamava Lívia, não Andréia acho...
Mais gritos, um tiro, talvez fosse...
De repente acordo todo suado e com a minha roupa cheia de pó, um gosto horrendo de metal e veneno na minha garganta, eram dias difíceis, eu não sabia se era dia ou noite, ultimamente não fazia muita diferença, estava sempre quente como o inferno e ninguém nunca via o sol...
Já fazia alguns anos que eu tinha esse sonho, mas eu nunca entendi bem o porque, não me recordo muito de nada desde que acordei nesse lugar, só sei que a dias não comia direito e minha barriga já estava roncando.
Começo a caminhar ciente de que naquela manha/tarde/noite não haveria café da manha, não era muito seguro ficar nas estradas, mas onde era seguro afinal de contas nesses dias?
Vejo no chão uma placa suja com algum nome, eu passo a mão e leio:
“BEM VINDO AO RANCHO VIVIAN – TERRA DOS SONHOS”
Vivian...
Um nome muito bom para um rancho, um nome muito bonito de fato...
Vivian...
E começo a caminhar em direção ao Rancho Vivian, quem sabe não encontre algo bom por lá, e de fato um lindo nome...