Abri meus olhos na esperança de acordar em minha cama,
acordar de um pesadelo, e claro que isso não durou nem um segundo já que era
uma criança que estava me acordando, dei um pulo pra trás de susto, ele fez um
sinal de calma e puxava o meu braço, eu ainda estava grogue por conta do
desmaio, minha cabeça estava doendo e a pancada que levei ao desmaiar não
ajudou muito.
Havia certo desespero nos olhos da criança, olhei para onde
vi a pobre mulher ser devorada e não restava nada, acho que as crianças monstro
se cansaram de brincar e deram um fim ao que restava dela, a criança continuava
puxando o meu braço, eu ainda estava no chão do café o cheiro podre havia
passado, não que o cheiro do ar fosse muito melhor, tentei levantar, mas estava
com as pernas bambas, minhas roupas estavam agora sujas de vômito, era tudo o
que eu precisava agora, pensei ao tentar “limpar” aquela sujeira.
A criança continuava puxando meu braço, então tentei
levantar para seguir ela, mesmo porque apesar de grogue eu sabia que não estava
no lugar mais seguro do mundo, e os olhos aflitos daquele menino também me
diziam isso.
A gente saiu pelos fundos do café, em um tipo de beco, o
menino seguia na frente, perguntei qual era o nome dele, ele fez um sinal de
silêncio e continuamos andando, ele abriu um buraco de bueiro no final do beco
e desceu, era só o que me faltava mesmo entrar em um esgoto, mas ao lembrar o
meu estado e do que andava na cidade que escolha eu tinha, e desci no bueiro...
Esperava achar ratos, baratas, mas comparado as ruas os
esgotos pareciam até mesmo ter um ar melhor, não havia uma gota de qualquer
tipo de liquido, apenas pedras, não era muito iluminado, mas ao pensar nisso o
menino acende uma lanterna grande e faz sinal pra seguir ele.
Continuamos andando
por o que em pareceu ser uma eternidade, virando , descendo, subindo por entre
as galerias, eu nem sequer pensei muito a respeito, minha cabeça doía demais, e
a idéia de estar andando toda suja e com a roupa suja de vômito me incomodava
bem mais do que qualquer outra coisa naquele momento.
Então chegamos a uma grande porta e o menino falou no meu
idioma:
- Chegamuu em casa...
- Desde quando você fala o meu idioma? Perguntei.
- Dioma? Du que a moça ta falandu?
- Deixa pra lá menino, você tem um nome? Perguntei isso
ajudando o menino a abrir a porta.
- Jonas, mas podi chama de Stickman, e meu apelidu, so
magrinho sabe...
Abrimos a grande porta e dentro havia o que deveria ter sido
uma estação elétrica, com maquinas antigas e que acredito que não funcionassem há
séculos pelo aspecto, mas estava tudo muito arrumado e limpinho, o que me
lembrou do meu estado...
- Tem algum lugar onde eu possa tomar um banho Jonas?
- E Stickman, não gostu do meu nome, tem sim moça naquela
porta ali.
Falou me apontando com o dedo.
- Vou pega uma coisa pa moça cuidar da cabeça, ta saindo
sangue e isso pode infecionar..
- Infeccionar você quer dizer não e mesmo?
Falei isso sorrindo pra ele.
- Foi o que eu disse infecionar...
- Está bem então, me deixa tomar um banho Stick.
Era um banheiro muito simples, mas quem se importava, tinha
água, fato que me deixou muito feliz e até um shampo havia, passei uns dez
minutos em baixo da água até que o Jonas bateu na porta e falou.
- Ta aqui na porta moça, e tem uma toalha...
- Obrigado Jonas – Gritei.
- E STICKMAN...
Resmungou ele do outro lado, fato que me fez sorrir.
Depois de passar uns 30 minutos tomando banho fui olhar o
corte na minha cabeça, não era algo muito profundo, mas estava doendo, fiz um
curativo da melhor maneira que deu e sai.
O pequeno Stick estava sentando em uma cadeira no canto
perto de uma cama, ele tinha arrumado umas três calças jeans e algumas blusas
em cima da cama para mim, ele estava chorando e não percebeu quando eu cheguei
perto.
Abracei-o e falei:
- Calma mocinho, você passou por muita coisa ruim hoje, pode
chorar...
Para a minha surpresa ele da um pulo e fala alto:
- Não estou chorando não, eu sou homi, e homi não chora,
minha vó que me ensinou, estou com raiva, com muita raiva, aqueles bichu vão pagar...
O pobrezinho mal conseguia falar, acho que ele não tinha nem
sete anos direito, eu abracei ele de novo e então ele começou a chorar e
soluçar muito...
- Minha vó, eu quero... Quero ela de volta, ela nun fez
nada, ela... Era tão boazinha comigo, com todo mundo, quero ela de volta...
Fiquei abraçada e passando a mão na cabeça dele até ele
parar de chorar, e então disse:
- Agora e hora de você ir tomar um banho mocinho e vestir
uma roupa limpa ta certo?
- Tem algo pra se comer aqui, se tiver eu faço algo pra nós
dois comermos.
- Tem ali O, e apontou o lugar onde deveria ser a cozinha.
- Ok agora banho pra você Stick, eu vou fazer algo pra nós
dois.
- Ta certuu moça, e sorriu.
- Meu nome e Andressa, prazer Stick – e estiquei a mão pra
ele apertar.
- Andr... Andressssaaaa, Andresssaaa, prazer – E mais uma
vez sorriu e entrou no banheiro.
Quando ele terminou e vestiu uma roupinha com cara de bem
velhinha, mas pude finalmente ver como era um garotinho lindo, tinha sardas no
rosto, de fato era bem magrinho, mas acredito que isso se deve mais a dieta
magra daquele lugar do que a outra coisa, o fato que me chamou a atenção era
que os olhos dele tinham duas cores, um era azul e o outro castanho...
- Bom fiz o melhor que pude Stick, purê de batatas enlatadas
e algumas almôndegas enlatada, nada muito saudável, mas fiz o melhor que pude...
- Ta otimuu Andresssaaa...
Falou isso com um grande sorriso, o que me deixou feliz por
algum motivo.
Embora eu tivesse fome mal tive coragem de comer aquelas
coisas, estava mais preocupada em saber onde diabos eu estava e comecei a
perguntar.
- Stick querido, você sabe me dizer onde nós estamos?
- Sei sim Andress (Ele respondeu com a boca cheia de purê)
em casa...
- Sim querido eu sei, mas digo que cidade e essa, como a
gente veio parar aqui, o que são aqueles monstros?
Ele parou por um instante e perguntou:
- Vai comer esse mondega? Se não for me da purr favo?
- Claro querido, coma tudinho.
Dei a comida e continuei perguntando e ele responde
finalmente:
- Não sei não Andresssa, minha avó e que sabia dessas cosa,
mais você pode ver no quarto tem uns recortes na parede e umas fotas, fica ali
O...
Fui ao quarto da avó do Stick, minha cabeça voltou a doer, o
quarto dela era bem simples mas até bonito na verdade, tinha uma mesinha e nas
paredes muitos recortes de jornais antigos, todos falavam sobre uma invasão e
uma guerra, imagens de monstros, uma resistência...
Mas um recorte de jornal me chamou a atenção, nele um Homem
muito bonito com uma roupa do tipo que generais usam falava algo, na reportagem
em negrito estava escrito:
General Victor
busca acordo de paz com invasores – 09/15
O grande potentado
discursou hoje em Palanx buscando um acordo de paz com os invasores:
“Temos que buscar um
entendimento com as forças invasoras, essa guerra já consumiu quase todo nosso
planeta e eu acredito que podemos chegar a um consenso para acabar com a essa
insanidade e como ato de boa vontade para com os invasores vamos desligar os
escudos de Naax para provar que estamos dispostos a negociar.”
O restante estava ilegível, havia muitas fotos do Victor
sobre a mesa da Avó do Stick, e então ele entrou no quarto.
- Acho alguma coisa Andressssa?
- Sabe quem e esse homem Stick?
- Sei sim, minha vó disse que tudo ta ruim assim por causa
desse homi ai, ele que trouxe esses bixu pra matar todo mundo, eu não gosto
dele...
Era estranho como aquele homem me era familiar algo me
chamava à atenção naquele rosto, talvez os olhos, mas havia questões mais
urgentes a tratar no momento e eu continuava sem saber de quase nada.
- Stick querido, existem mais pessoas vivendo aqui em baixo
com vocês, amigos, parentes, conhecidos?
- Naum tem mais naum, foi todo mundo embora com medo dus
bixo vir aqui, só ficou eu é a Vó, agora só tem eu e você, você vai ficar né?
O menino fez essa pergunta com os olhos cheios de esperança,
como eu podia responder essa pergunta, eu não podia deixar ele sozinho ali, mas
não podia ficar também, tinha a minha vida a retomar e principalmente sair
daquele pesadelo.
Vou ficar com você sim Stick(respondi) não vou te deixar só
não, mas preciso de respostas...
- Bom a Vó sempre falava desse luga aqui O...
Stick pegou um tipo de diário e abriu, dentro havia um
cartão de identificação com a foto da Avó do Stick que dizia:
“NÍVEL DE ACESSO 10 – NAAX”
“ELEONOR THOMPSON – ENGENHEIRA QUIMICA ALPHA++”
E no e mail:
O código de acesso continua o mesmo, OMEGA 7884, você tem
que entrar em Naax pelas entradas secundárias já que e impossível desligar o
sistema de segurança das entradas principais desde a primeira onda de ataque,
Victor não tomou a cidade, o que prova que o nosso escudo e de fato efetivo, o
problema e que a cidade continua sitiada justamente por conta disso, o local de
encontro e no antigo Rancho Vivian, tenho certeza de que você ainda se lembra.
Bom meu amor espero ver você em breve, tome muito cuidado e
não confie em ninguém, não sabemos o que Victor tem feito no berçário e que
tipo de aberrações ele pode ter criado.
PS: Encontrou o menino de que você falava? Te amo...
Naax bom não era muita coisa, mas pelo menos já era alguma
coisa então perguntei.
Stick você sabe se por aqui tem algum mapa?
- Sim ali O – Ele apontou para um mapa no canto da parede
que estava marcado e para a minha felicidade o tal Rancho estava lá com um
alfinete e a tal cidade, quem daria um nome idiota desses pra uma cidade, mas
enfim...
Não me pareciam distantes e bom eu não pretendia ficar
morando em um esgoto com monstros na minha cabeça então disse:
- Stick eu não vou abandonar você querido, mas você vai ter
que me ajudar em uma coisa.
- Você quer ir pra lá né? Essa cidade que a vó queria me
levar?
- Bom não podemos ficar aqui você não acha?
- Eu sei, eu e a vó estávamus indo pra lá por isso tivemos
que subir na rua pra pegar o que ainda tinha nos mercadu...
- Você sabe como sair dessa cidade?
- Sim, a vó me fez estudar isso (apontando pro mapa) por
dias, purque se algum bixu pegasse ela eu ia ter que ir sozinho, mas agora vou
com você – E ele mostrou mais uma vez seu lindo sorriso.
-Bom meu querido então vamos pegar o que a gente puder levar
e vamos assim que a gente dormir um pouco tudo bem pra você?
- CERTUUUUUU...
Coloquei o pequeno Stick pra dormir cantando algumas músicas
de ninar antigas que sabia e ele adormeceu rápido, peguei o diário de Eleonor e
dei uma rápida olhada...
08/10
“O berçário vai ser a
fonte de uma grande revolução no que diz respeito à medicina, ainda não temos
nem sequer idéia do potencial dessa maravilha que criamos, mas o Potentado
Victor tem uma visão extraordinária sobre até onde podemos chegar, e acredito
que vamos conseguir executar os testes em humanos em breve, só imagino a
felicidade dessas pessoas que perderam um braço ou perna em ter eles de
volta...”
Havia muita coisa técnica no diário que eu não entendia
absolutamente nada, nossa como eu estava cansada, precisava dormir então algo
me chamou a atenção no diário.
02/14
“Estou ansiosa por
esse dia, vamos iniciar o teste em humanos, o primeiro passo e recriar as
pernas de uma garotinha chamada Emilly, ela nasceu sem as pernas e acredito que
vamos conseguir, o processo se inicia pela manha e todos estão otimistas sobre
os resultados.”
“Victor disse que não
iria dormir naquela noite e iria ficar no laboratório para verificar alguns
testes, espero que tudo de certo, preciso dormir amanha vai ser um dia glorioso
que vai entrar para a historia”
02/15
Todos os
procedimentos indicaram que tudo daria certo, as imagens mostram que Emilly
reagiu bem ao processo e as pernas delas foram recriadas, mas algo saiu errado,
a garotinha começou a sofrer de fortes dores e perdeu o controle, a sala do
berçário foi tomada por um odor horrendo de metal, as pessoas que estavam do lado de
dentro se tornaram seres deformados, o berçário foi evacuado, para a minha
surpresa o prédio já estava cercado pelo exercito e Victor estava a frente
garantindo que nada entraria ou sairia dali sem a permissão dele.
Bom fosse quem fosse esse Victor ele era uma peça chave
dessa loucura, mas eu no momento só queria dormir e não pensar em nada...
Engraçado...
O relógio estava marcando 2:16...
E então adormeci...
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