terça-feira, 4 de outubro de 2011

Vivian...



Já fazia pelo menos umas três horas que eu andava na estrada para o rancho Vivian, meu estomago já roncava alto e eu ainda tinha que lidar com as tonturas por conta da fome, eu não tinha muita escolha, tinha que comer meu ultimo pedaço de carne seca que eu tinha na mochila com o que restava de água, eu estava guardando para emergências, mas acredito que aquilo era uma emergência.
O fato e que se eu não conseguisse algo pra comer ainda hoje, bom, não queria pensar na opção, me sentei em baixo de um tronco seco que ainda fazia alguma sombra...
Olhei pra cima pra ver se não havia alguns abutres (como nos filmes de outrora) esperando o meu fim, mas não havia nada, na verdade há semanas que eu não via nada vivo naquela terra, nem mesmo aquelas criaturas horrendas e fétidas.
Comi minha ultima porção de comida e voltei a caminhar novamente, sem muitas esperanças no final das contas, o tal rancho deveria ser apenas um monturo de lixo como tantos outros nessa terra amaldiçoada, nossa como eu queria gritar com algo ou alguém, como eu queria me livrar dessa raiva que sinto nesse momento, eu já estava nessa terra infeliz há tanto tempo e até aquele momento eu não havia parado pra pensar em como infernos eu cheguei ali.
O fato e que eu não me lembrava muito bem, havia apenas aqueles sonhos de outra vida, mas eu nunca descartei a possibilidade de já ter morrido é esse lugar ser o próprio inferno que me ensinavam na escola bíblica, mas não importava também, tudo o que importava era sobreviver, bom eu me pergunto para o que afinal, mas o instinto sempre e mais forte e no final das contas quem é que quer morrer?
Ao longe avistei o que era uma construção, talvez o rancho, quem sabe com sorte não tenha alguma comida por lá, afinal essa estrada fica bem fora de qualquer rota e pode não ter sido saqueada, mas ao caminhar em direção a casa eu sabia que na verdade só não queria admitir o óbvio, era o meu fim...

Ao chegar ao rancho vi que ao contrario do que eu imaginava a casa estava em um ótimo estado o que melhorou bastante meu animo, era uma casa enorme e com cara de ser bem antiga, mas o que me chamou mais atenção não foi a casa em si, mas sim uma bomba de água, daqueles modelos antigos, corri em direção dela e comecei a bombear.
- Por favor, tenha água, por favor, tenha água, por fa...
Então água, eu não ficava tão feliz assim, bom sei lá há quanto tempo, o que importava e que havia água e eu bebi o máximo que pude até engasgar, saciado peguei um balde que tinha perto e enchi ele, tirei os trapos que me cobriam e coloquei a mochila junto da parede.
Após algumas semanas sem um banho aquilo era simplesmente divino, deixei a água cair sobre a minha cabeça e um após o outro eu me sentia limpo, sentia renovado, quem sabe a desgraçada da sorte não tenha voltado a sorrir para mim novamente, quem sabe eu..., mãe do céu como eu estou magro...
De fato tudo o que restava era um saco de pele e ossos que ainda andava, minha pele estava cheia de queimaduras por conta do sol, meus pés, bom, um dia foram pés, no momento eram apenas bolhas.
Fiquei deitado um pouco na pedra ao lado da bomba, lavei meus trapos e vesti a ultima peça de roupa inteira que eu tinha, uma calça jeans surrada e uma camiseta regata, não tinha muito o que fazer com relação aos meus pés então enfiei eles dentro da velha bota de couro e fui vasculhar a casa.
A porta estava aberta, tirei uma velha faca de caça que peguei de um soldado morto há algumas semanas e abri a porta, gritei um “TEM ALGUÉM AI” óbvio sem resposta e para a minha surpresa a casa estava perfeitamente arrumada, não importava e claro, eu só conseguia pensar onde ficava a cozinha e logo a encontrei, abri os armários, estavam cheios de caixas com todo tipo de comida e bebidas, fui tomado pela emoção, porra eles tinham até cereal e leite...
Enchi um prato com o cereal e o leite, peguei açúcar que tinha sobre a mesa e coloquei no cereal, nossa aquilo era perfeito demais, por um minuto eu pensei que talvez estivesse sonhando, mas não estava eu sentia o sabor doce do açúcar na minha boca, por um minuto eu simplesmente esqueci de onde estava, a fome era maior do que a precaução.
Abri um saco de bisnagas e comi como se fosse a minha ultima refeição e então escuto um click.
Tem alguém no porão, devem ser os donos da casa e até onde eu sei ninguém deixa toda essa comida sem proteção, encho uma caixa com tudo que consigo carregar e saiu correndo pra fora da casa, à tontura volta, apesar de ter comido algo a minha dieta nas ultimas semanas não tem sido das melhores, isso quando houve alguma.
Junto meu trapos e pego a minha mochila e saiu correndo, as pernas tremem, a cabeça gira, mas eu tenho que correr, eu não quero morrer...
- Ei pare, volte aqui, espere...
Escuto uma voz feminina, passos de três homens correndo pra me pegar, mas não olho pra trás, mais uma vez a sorte me abandona, a sorte e como uma mulher ingrata que uma hora te coloca no céu e no outro minuto te toma tudo.
A tontura aumenta, eu não vou conseguir fugir, só escuto os passos se aproximando, e o meu fim, cacete eu vou morrer...
- PARADO – Grita um dos homens a uns 2 metros de mim.
Outro me derruba, a comida toda cai no chão, mas não importa tudo o que importa e ficar vivo, tudo que importa e continuar respirando...
- Eu não vou... comida... minha...
Nem consigo falar, minha cabeça gira, fica tudo branco, eu não quero morrer, eu não quero morrer.
Abro o olho e vejo que estou cercado e preso no chão, tento inutilmente me soltar, não tenho mais forças, e o meu fim, vou morrer como a porra de um ladrão, e o meu fim, eu começo a chorar...
- O que diabos você estava tentando fazer homem se acalme, não vamos machucar você.
Só me recordo de tentar dizer:
- Eu não... qu...morrer...
E então tudo se apagou.

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