quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Despertar...


Eu estava em mais um daqueles sonhos de uma vida de outrora, estava em uma praia com muita gente, usava uma camiseta, short um chapéu ridículo e um óculos de sol como todo bom turista, era uma daquelas festas de praia e estava havendo um concurso de garotas de biquíni na piscina do hotel ou algo que o valha.
 Eu já me considerava um velho para essas coisas e resolvi me sentar em uma mesa mais distante e ler um jornal com algumas margueritas, na capa do jornal tinha uma notícia sobre um novo grande estadista que defendia a paz e o desarmamento, seu nome era Victor, engraçado um jornal dar tanto crédito a um total desconhecido falando em paz e amor, mas a imprensa deve ter lá seus motivos e atualmente não estava acontecendo nada de muito interessante, fora as eternas guerras no Oriente Médio.
Fiquei folheando o jornal sem absolutamente ler nada, na verdade eu só pensava no contrato com a nova indústria farmacêutica que andava provocando burburinhos no mundo corporativo e o motivo pelo qual eu tinha ido à praia, se aquela nova linha de medicamentos fizesse apenas metade do que se prometia nós ganharíamos bilhões, muito embora houvessem dezenas de estudos apontando para possíveis efeitos colaterais sérios isso não seria nenhum problema, eu estava muito próximo de conseguir fechar o contrato e não seria alguns estudos que me impediriam.
Foi quando me dei conta de que o som havia parado, pode ser que o concurso tenha acabado, mas por que todo aquele silêncio afinal?
Então me dou conta de que não tem mais absolutamente ninguém na piscina do hotel, tampouco na praia, está tudo deserto e abandonado ou quase tudo...
Em uma mesa do outro lado da piscina eu vejo uma senhora com um cachorrinho bebendo algo e olhando para uma revista, o dia se torna estranhamente nublado então vou em direção dela.
- Com licença, bom dia senhora, sabe me dizer o que houve aqui?
Ela continua lendo a revista sem parecer se importar com o que eu falo o cachorrinho dela, um daqueles poodles irritantes, estava dormindo ao lado da mesa.
- Senhora, por favor...
- Está apreciando a praia meu rapaz?
- Bom estou, quer dizer estava até a pouco, antes de todo mundo sumir, sabe o que houve?
- Claro que sei o que houve os mais velhos sempre sabem de tudo não é verdade?
- Eu imagino que sim, então onde foi todo mundo?
-Todos estão em seus respectivos mundos, realidades, épocas, universos, cada um seguiu o caminho que achou por bem trilhar, embora alguns deles não pensaram nas conseqüências do caminho que seguiram.
- Do que a senhora está falando afinal? 
- Há pouco aqui estava cheio de pessoas e agora não resta mais ninguém, e você vem me falar de realidades e universos? 
- O que tem nesse chá que a senhora está bebendo?
Eu me viro pra piscina e as palavras mal saem da minha boca...
- Mas... que porra...
A piscina era uma poça de um líquido negro e escuro, o hotel estava em chamas, aliás, tudo por ali estava em chamas, havia muitos corpos espalhados por todo o lugar, se escutava gritos de todos os lugares...
O ar do lugar estava tomado por um violento gosto de metal que ardia a garganta, eu me viro para a senhora que continua lá sentada e pensativa:
- Mas o que aconteceu aqui, pelo amor de Deus o que aconteceu aqui?
- Tem certeza de que não sabe, meu caro Peter?
- Com mil diabos é claro que eu não sei o que houve com esse lugar, santa mãe de Deus...
Meus olhos se voltam para a praia, uma criatura gigantesca caminha pela praia coletando os corpos e jogando em um grande container que está amarrado ao corpo dele por grandes correntes, vez por outra ele come alguns dos coletados, pernas, braços jogando fora apenas à cabeça.
- Isso é um pesadelo, só pode ser um pesadelo...
- Talvez sim, meu caro Peter, um pesadelo, mas um pesadelo nada mais é do que um universo dentro de outro universo...
- Isso não faz nenhum sentido, o que está acontecendo aqui, por favor, me explique...
A criatura parou e me olhou por alguns instantes, o que fez o meu sangue gelar, era como um desses ogros de filmes de fantasia, muito alto e forte, se via centenas de dentes e apenas um olho, expressa sorriso hediondo com restos de carne humana entre os dentes e segue o seu caminho dando um grande bocejo.
- Esse é o mundo que pessoas como você prepararam com todos os seus esforços Peter, isso é o que eu chamo de “PARAÍSO PARTICULAR DO PETER”.
A velha deu uma grande gargalhada, então eu me viro para ver a velha novamente, mas ela simplesmente some, estava muito quente e os gritos se tornam mais intensos e sofridos.
O “ogro” que andava bem lentamente jogava uma das vítimas para cima e deixava ele cair e dava uma gargalhada horrenda com os gritos de dor do pobre homem que já tinha perdido as pernas, provavelmente devoradas pelo ogro.
Corri para o que restava do meu quarto no hotel, passando entre vários corpos e alguns deles pareciam ter passado por uma explosão atômica, dado a gravidade das queimaduras nos seus corpos; os que ainda tinham força tentavam me agarrar gemendo por socorro, me soltei deles e sai correndo sem saber o que pensar.
O Hotel era um forno, tudo estava em chamas, mas eu precisava chegar ao meu quarto, tudo o que eu tinha estava lá.
 Um cozinheiro apareceu correndo e gritando em chamas com alguma coisa mordendo o pescoço dele, subi pela escada de incêndio o mais rápido que pude, era óbvio que subir em um prédio em chamas era burrice, mas no momento o que eu poderia fazer?
Abri a porta do corredor onde ficava o meu quarto, estava aparentemente inteiro.
Corri para o quarto, o cartão não abria a porta, peguei o machado que ficava ao lado do extintor no corredor e quebrei a fechadura, ao abrir a porta encontro a velha sentada alisando seu cachorro em uma cadeira do quarto olhando pela janela.
- Mas que droga está havendo aqui, sua velha desgraçada, que diabos aconteceu com esse lugar?
- Acho que já respondi essa pergunta não? 
- Esse é o seu “paraíso particular”, ou pelo menos foi algo pelo qual você lutou tanto para conseguir em vida...
- Em vida, quer dizer que eu morri e isso aqui é o inferno? 
- Continua delirando velha, eu jamais lutaria pra estar em um pesadelo como esse...
- Eu não conheço nenhum inferno que não sejam os particulares, meu caro Peter, além disso, eu não disse que você morreu.
- Se não vai me ajudar, então suma da minha frente. 
- O que eu faço agora, maldição...
- Não há muito que se fazer agora além de se tentar sobreviver Peter, mas quem sabe remediar e acredito que você vai ser bem útil em breve, se assim desejar, mas essa é uma conversa para mais tarde...
A velha some novamente, então vejo a fumaça tomando o corredor; 
- Merda tenho que sair daqui.
Junto as minhas coisas, que não são muitas, em uma mala e saio em direção à escada de incêndio, ao me aproximar da escada algo chama a minha atenção para o final do corredor. Parece uma pessoa, mas tem algo errado, ela está de costas então eu digo algo...
 - Olá...
A criatura se vira e o medo toma conta de mim mais uma vez, uma mulher deformada por queimaduras, a pele dela está cheia de feridas e o pior não existe nada onde deveriam estar os olhos...
- É VOCÊ, AMOR? EU ESPERO POR VOCÊ POR TANTO TEMPO...
Então ela corre em minha direção com os braços abertos, eu caiu pra trás com o susto, a criatura quase me alcança, mas aos tropeções consigo chegar a escada o mais rápido que posso...
- AMOR, VENHA PARA OS BRAÇOS DE SUA AMADA...
O gelo toma conta de cada gota de sangue do meu corpo, chego ao hall e a criatura continua sua corrida para me pegar, o cozinheiro, agora morto pelas chamas, tem suas tripas devoradas pela criatura que estava antes no pescoço dele. 
Sigo para o lado de fora e bato de frente com um daquelas ogros gigantes, ele me joga longe com um golpe, acho que devo ter quebrado algumas costelas com o impacto. 
A mulher sai pela porta jurando amor eterno, mas assim que ela se da conta do ogro ela tenta correr de volta pra dentro do prédio, em vão...
Só tenho tempo de ouvir os gritos de “amor eterno” por mim antes dela ser devorada pelo ogro que desaparece com aquela coisa com apenas duas dentadas.
Começo a perder a consciência devido ao golpe que levei do ogro, tem algo se aproximando de mim, será outro ogro? Alguma criatura querendo me devorar, Deus eu preciso levantar, não quero morrer, não nesse inferno, não posso morrer ainda...
Acordo desnorteado em uma cama com alguns homens e uma mulher tentando me acalmar.
- Calma, Peter, foi só um pesadelo, calma...
- Eu... Onde eu estou...
- Está em segurança Peter, agora tome isso e descanse, você ainda está muito ferido e desnutrido.
- Onde está a velha, onde está a velha?
- Calma Peter, calma, descanse agora.
Um dos homens aplica uma injeção no meu braço, então adormeço novamente esperando não sonhar de novo...

Nenhum comentário:

Postar um comentário