Eu estava em mais um daqueles
sonhos de uma vida de outrora, estava em uma praia com muita gente, usava uma
camiseta, short um chapéu ridículo e um óculos de sol como todo bom turista, era
uma daquelas festas de praia e estava havendo um concurso de garotas de biquíni
na piscina do hotel ou algo que o valha.
Eu já me considerava um velho para essas
coisas e resolvi me sentar em uma mesa mais distante e ler um jornal com
algumas margueritas, na capa do
jornal tinha uma notícia sobre um novo grande estadista que defendia a paz e o
desarmamento, seu nome era Victor, engraçado um jornal dar tanto crédito a um
total desconhecido falando em paz e amor, mas a imprensa deve ter lá seus
motivos e atualmente não estava acontecendo nada de muito interessante, fora as
eternas guerras no Oriente Médio.
Fiquei folheando o jornal sem
absolutamente ler nada, na verdade eu só pensava no contrato com a nova indústria
farmacêutica que andava provocando burburinhos no mundo corporativo e o motivo
pelo qual eu tinha ido à praia, se aquela nova linha de medicamentos fizesse
apenas metade do que se prometia nós ganharíamos bilhões, muito embora
houvessem dezenas de estudos apontando para possíveis efeitos colaterais sérios
isso não seria nenhum problema, eu estava muito próximo de conseguir fechar o
contrato e não seria alguns estudos que me impediriam.
Foi quando me dei conta de que o
som havia parado, pode ser que o concurso tenha acabado, mas por que todo
aquele silêncio afinal?
Então me dou conta de que não tem
mais absolutamente ninguém na piscina do hotel, tampouco na praia, está tudo
deserto e abandonado ou quase tudo...
Em uma mesa do outro lado da piscina
eu vejo uma senhora com um cachorrinho bebendo algo e olhando para uma revista,
o dia se torna estranhamente nublado então vou em direção dela.
- Com licença, bom dia senhora,
sabe me dizer o que houve aqui?
Ela continua lendo a revista sem
parecer se importar com o que eu falo o cachorrinho dela, um daqueles poodles
irritantes, estava dormindo ao lado da mesa.
- Senhora, por favor...
- Está apreciando a praia meu
rapaz?
- Bom estou, quer dizer estava até
a pouco, antes de todo mundo sumir, sabe o que houve?
- Claro que sei o que houve os mais
velhos sempre sabem de tudo não é verdade?
- Eu imagino que sim, então onde
foi todo mundo?
-Todos estão em seus respectivos
mundos, realidades, épocas, universos, cada um seguiu o caminho que achou por
bem trilhar, embora alguns deles não pensaram nas conseqüências do caminho que seguiram.
- Do que a senhora está falando
afinal?
- Há pouco aqui estava cheio de pessoas e agora não resta mais ninguém, e você vem me falar de realidades e universos?
- O que tem nesse chá que a senhora está bebendo?
- Há pouco aqui estava cheio de pessoas e agora não resta mais ninguém, e você vem me falar de realidades e universos?
- O que tem nesse chá que a senhora está bebendo?
Eu me viro pra piscina e as
palavras mal saem da minha boca...
- Mas... que porra...
A piscina era uma poça de um líquido
negro e escuro, o hotel estava em chamas, aliás, tudo por ali estava em chamas,
havia muitos corpos espalhados por todo o lugar, se escutava gritos de todos os
lugares...
O ar do lugar estava tomado por um
violento gosto de metal que ardia a garganta, eu me viro para a senhora que continua
lá sentada e pensativa:
- Mas o que aconteceu aqui, pelo
amor de Deus o que aconteceu aqui?
- Tem certeza de que não sabe, meu
caro Peter?
- Com mil diabos é claro que eu não
sei o que houve com esse lugar, santa mãe de Deus...
Meus olhos se voltam para a praia,
uma criatura gigantesca caminha pela praia coletando os corpos e jogando em um
grande container que está amarrado ao corpo dele por grandes correntes, vez por outra ele come alguns dos
coletados, pernas, braços jogando fora apenas à cabeça.
- Isso é um pesadelo, só pode ser
um pesadelo...
- Talvez sim, meu caro Peter, um
pesadelo, mas um pesadelo nada mais é do que um universo dentro de outro
universo...
- Isso não faz nenhum sentido, o
que está acontecendo aqui, por favor, me explique...
A criatura parou e me olhou por
alguns instantes, o que fez o meu sangue gelar, era como um desses ogros de
filmes de fantasia, muito alto e forte, se via centenas de dentes e apenas um olho,
expressa sorriso hediondo com restos de carne humana entre os dentes e segue o
seu caminho dando um grande bocejo.
- Esse é o mundo que pessoas como
você prepararam com todos os seus esforços Peter, isso é o que eu chamo de “PARAÍSO
PARTICULAR DO PETER”.
A velha deu uma grande gargalhada,
então eu me viro para ver a velha novamente, mas ela simplesmente some, estava
muito quente e os gritos se tornam mais intensos e sofridos.
O “ogro” que andava bem lentamente
jogava uma das vítimas para cima e deixava ele cair e dava uma gargalhada horrenda com os gritos de dor do pobre homem que já tinha perdido as pernas,
provavelmente devoradas pelo ogro.
Corri para o que restava do meu
quarto no hotel, passando entre vários corpos e alguns deles pareciam ter
passado por uma explosão atômica, dado a gravidade das queimaduras nos seus
corpos; os que ainda tinham força tentavam me agarrar gemendo por socorro, me
soltei deles e sai correndo sem saber o que pensar.
O Hotel era um forno, tudo estava
em chamas, mas eu precisava chegar ao meu quarto, tudo o que eu tinha estava
lá.
Um cozinheiro apareceu correndo e gritando em
chamas com alguma coisa mordendo o pescoço dele, subi pela escada de incêndio o
mais rápido que pude, era óbvio que subir em um prédio em chamas era burrice,
mas no momento o que eu poderia fazer?
Abri a porta do corredor onde
ficava o meu quarto, estava aparentemente inteiro.
Corri para o quarto, o cartão não
abria a porta, peguei o machado que ficava ao lado do extintor no corredor e
quebrei a fechadura, ao abrir a porta encontro a velha sentada alisando seu
cachorro em uma cadeira do quarto olhando pela janela.
- Mas que droga está havendo aqui,
sua velha desgraçada, que diabos aconteceu com esse lugar?
- Acho que já respondi essa
pergunta não?
- Esse é o seu “paraíso particular”, ou pelo menos foi algo pelo qual você lutou tanto para conseguir em vida...
- Esse é o seu “paraíso particular”, ou pelo menos foi algo pelo qual você lutou tanto para conseguir em vida...
- Em vida, quer dizer que eu morri
e isso aqui é o inferno?
- Continua delirando velha, eu jamais lutaria pra estar em um pesadelo como esse...
- Continua delirando velha, eu jamais lutaria pra estar em um pesadelo como esse...
- Eu não conheço nenhum inferno que
não sejam os particulares, meu caro Peter, além disso, eu não disse que você
morreu.
- Se não vai me ajudar, então suma
da minha frente.
- O que eu faço agora, maldição...
- O que eu faço agora, maldição...
- Não há muito que se fazer agora além de se tentar sobreviver Peter,
mas quem sabe remediar e acredito que você vai
ser bem útil em breve, se assim desejar, mas essa é uma conversa para mais tarde...
A velha some novamente, então vejo a fumaça tomando o corredor;
- Merda tenho que sair daqui.
- Merda tenho que sair daqui.
Junto as minhas coisas, que não são
muitas, em uma mala e saio em direção à escada de incêndio, ao me aproximar da
escada algo chama a minha atenção para o final do corredor. Parece uma pessoa,
mas tem algo errado, ela está de costas então eu digo algo...
- Olá...
- Olá...
A criatura se vira e o medo toma
conta de mim mais uma vez, uma mulher deformada por queimaduras, a pele dela
está cheia de feridas e o pior não existe nada onde deveriam estar os olhos...
- É VOCÊ, AMOR? EU ESPERO POR VOCÊ
POR TANTO TEMPO...
Então ela corre em minha direção
com os braços abertos, eu caiu pra trás com o susto, a criatura quase me alcança, mas aos tropeções consigo chegar a escada o mais rápido que posso...
- AMOR, VENHA PARA OS BRAÇOS DE SUA
AMADA...
O gelo toma conta de cada gota de
sangue do meu corpo, chego ao hall e
a criatura continua sua corrida para me pegar, o cozinheiro, agora morto pelas
chamas, tem suas tripas devoradas pela criatura que estava antes no
pescoço dele.
Sigo para o lado de fora e bato de frente com um daquelas ogros gigantes, ele me joga longe com um golpe, acho que devo ter quebrado algumas costelas com o impacto.
A mulher sai pela porta jurando amor eterno, mas assim que ela se da conta do ogro ela tenta correr de volta pra dentro do prédio, em vão...
Sigo para o lado de fora e bato de frente com um daquelas ogros gigantes, ele me joga longe com um golpe, acho que devo ter quebrado algumas costelas com o impacto.
A mulher sai pela porta jurando amor eterno, mas assim que ela se da conta do ogro ela tenta correr de volta pra dentro do prédio, em vão...
Só tenho tempo de ouvir os gritos
de “amor eterno” por mim antes dela ser devorada pelo ogro que desaparece com aquela coisa com apenas duas
dentadas.
Começo a perder a consciência
devido ao golpe que levei do ogro, tem algo se aproximando de mim, será outro
ogro? Alguma criatura querendo me devorar, Deus eu preciso levantar, não quero
morrer, não nesse inferno, não posso morrer ainda...
Acordo desnorteado em uma cama com alguns
homens e uma mulher tentando me acalmar.
- Calma, Peter, foi só um pesadelo,
calma...
- Eu... Onde eu estou...
- Está em segurança Peter, agora
tome isso e descanse, você ainda está muito ferido e desnutrido.
- Onde está a velha, onde está a
velha?
- Calma Peter, calma, descanse
agora.
Um dos homens aplica uma injeção no
meu braço, então adormeço novamente esperando não sonhar de novo...
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