quarta-feira, 20 de junho de 2012

Apenas um outono qualquer...


Hoje tinha sido um dia comum, como tantos outros dias comuns, era a primeira vez que eu pedia para sair mais cedo, em dez anos de empresa eu nunca tinha me atrasado ou faltado fosse pelo motivo que fosse.
Mas hoje eu disse que ia sair mais cedo, estava doente eu falei, precisava descansar um pouco que amanha eu voltaria melhor eu disse, ninguém se importou e claro, mas eu tinha um grande motivo e precisava pensar no que fazer...
Eu sempre ia para casa de ônibus embora meu apartamento ficasse a poucas quadras do meu trabalho, era um apartamento pequeno, mas o bairro não era dos piores e tinha uma pracinha muito bonita em frente.
Fui caminhando e pela primeira vez em dez anos prestei atenção no meu trajeto, havia muitas lojinhas de todo tipo de coisa, pesos de papel, fantasias para festas, farmácias com seus eternos idosos dentro, uma padaria com um cheirinho bom de pão fresco, uma quitanda com frutas muito bonitas do outro lado da rua.
Era incrível que eu nunca tinha notado todo aquele mundo de coisas novas, quando jovem (Oras vejam só eu ainda tinha apenas 38 anos e já me considerava um idoso) eu sempre me gabava de prestar atenção em cada detalhe sobre tudo, engraçado o que o tempo e a acomodação faz com a gente.
Já próximo da pracinha que fica em frente ao meu apartamento eu entrei em uma lojinha de conveniência, um moça muito simpática com o rosto com várias espinhas me atende com um “BOA TARDE SENHOR” bem sonoro, sorrio para a moça e peço um maço de cigarro e algumas cervejas.
- Não e cedo demais para beber senhor?
- Não hoje mocinha, não hoje...
- Perdão senhor, não e da minha conta, desculpe.
- Não se preocupe.
Dei uma nota de cinqüenta para a moça e disse que ela poderia ficar com o troco, o que a deixou com um enorme sorriso no rosto, me despedi e fui para um banco da pracinha, entre alguns velhinhos que jogavam papo fora sobre política e algumas crianças que brincavam nos brinquedos eu apenas via uma coisa, o quanto o dia estava bonito, era outono o tempo estava meio frio, mas ainda assim agradável, a pequena lagoa no meio da pracinha refletia o sol o que dava um ar alaranjado a praça, era de fato um dia muito bonito.
Eu tomei umas três cervejas no banco, entre sorrisos infantis e velhos resmungando, na mais completa certeza de que aquele era um dia especial.
Resolvi ir para casa, as cervejas já estavam esquentando e eu não tinha mais pulmão para fumar, estava velho para fumar era o que eu me dizia todos os dias, o porteiro falou algo comigo que eu não prestei atenção e me entregou a correspondência, resolvi subir pelas escadas, exercício sempre era bom, eu acho...
Ao chegar à porta da minha casa escutei barulhos dentro, era estranho, pois a minha esposa estava no trabalho e eu não tinha filhos, abri a porta bem devagar sem fazer barulho e fui até a arma que guardo em baixo do sofá.
Caminhei para o meu quarto lentamente e entendi o que se passava, minha esposa estava me traindo, claro que eu já sabia desse fato há algum tempo, não importava e claro, afinal a minha vida de casado já tinha acabado há alguns anos, o que me surpreendeu foi com quem...
Abri a porta do quarto e lá está ela, uma mulher muito bonita com os seus trinta e cinco anos de idade, minha esposa sempre foi muito bonita, sempre me orgulhei da vaidade dela, ela estava com o meu melhor amigo Higino, ele morava no andar de baixo e a gente se conhecia desde que eu tinha uns oito anos.
- Marcos o que você ta fazendo aqui essa hora (Ela falou).
- Marcos, calma eu posso explicar (Ele falou).
E engraçado como nessa hora, quando a gente pega alguém no flagra nesse tipo de situação o como as justificativas são idiotas, oras o cara estava transando com a minha mulher na minha cama, é e o meu melhor amigo e me fala, EU POSSO EXPLICAR...
Tudo que eu via nos rostos de ambos era o pavor, e claro eu estava armado e tinha todos os motivos do mundo para matar ambos e por isso o medo deles, mas eu não os via naquele contexto, eu me lembrei de ambos desde o inicio, as brincadeiras com o Higino na rua, os jogos de futebol, as brigas, as namoradinhas, lembrei da Marta quando a conheci em um bailinho da minha cidade, a primeira dança, o primeiro beijo.
O quarto se encheu de terror por parte de ambos que me pediam calma, que me explicariam tudo, mas eu estava calmo, aquele era o dia mais perfeito da minha vida, era outono, o dia estava lindo, eu tinha uma linda esposa e um amigo que eu amava de verdade...
Dois tiros e tudo se silenciou...
Cheguei perto da Marta que jazia no chão com um tiro no peito, como ela era linda, eu nunca vou entender o como uma mulher tão bela terminou a vida com um homem como eu, beijei seu rosto e fechei seus olhos, me voltei para Higino, meu amado amigo Higino para quem eu fiz de um tudo nessa vida e faria ainda mais se fosse possível, beijei seu rosto e disse:
- Adeus meu amigo.
E fechei seus olhos.
A essa altura os outros moradores já tinham ligado para a polícia, eu ouvia gritos e berros nos corredores do prédio, deixei a arma em cima da cama e voltei para a sala, peguei a minha cerveja e fui para o ultimo andar do prédio, a cerveja estava quente, mas bebi-a mesmo assim, me sentei no parapeito e olhei o por do sol, um grande e belo por do sol, em breve a cidade ia se encher de luz e sons de carros, buzinas, gritos, música e sorrisos...
Assim era a vida eu acho...
Tirei do meu bolso o motivo de ter saído mais cedo do trabalho hoje, olhei os números mais uma vez comparando com os do jornal, sim era verdade eu era o único ganhador de um prêmio de mais de cinqüenta milhões, voltei mais cedo para casa justamente para dizer o quanto amava a minha esposa, pedir uma chance para ela, recomeçar...
Gritos atrás de mim, a polícia me manda colocar as mãos para cima, oras vejam só como é a vida, os gritos continuam, mas eu não me importo, pois nada vai estragar o meu dia.
Confiro novamente os números, sim era verdade, bebo mais um gole da cerveja quente e o resto e somente um borrão, na verdade não importa...
Alguns anos mais tarde, já em liberdade, eu me pego pensando naquela tarde de outono, sinceramente eu ainda espero que a Marta e o Higino apareçam aqui na minha casa para a gente apenas sorrir de tudo isso, lembrar dos tempos de outrora, planejar o futuro.
Não sei bem como a vida funciona ou o que esperar dela, mas sei que desde aquele dia eu tento viver cada minuto da melhor maneira possível, pois nunca se sabe o que nós espera mais a frente.

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